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ESQUINAS DA VIDA

  Encontro-me literalmente na esquina. Vejo quase tudo de vários ângulos e às vezes tenho dificuldades para decidir qual o melhor. Sigo como sempre fiz desde que frequentava a esquina da Livraria Estudantil em Caruaru. Do lado oposto havia a Ótica Globo, cujo dono, Ivanildo Santos, faleceu há alguns dias. Era ali que me encontrava todos os dias com amigos da vida inteira, como Carlos Fernando, Manuel Messias, Romero Figueiredo, Assis Claudino, João Batista, Danilo Queiroz ou Arnóbio Oliveira, entre outros. Já não existe a esquina da avenida Guararapes, no centro do Recife, onde conversava com José do Patrocínio, misto de jornalista e jornaleiro, com quem discutia os destinos do mundo. Lembrava então de outro jornaleiro, Zé do Gelo, que vendia jornais na esquina da rua Tenente Cleto Campelo, com a rua da matriz, centro de Gravatá. Haja esquina. A da São João com Ipiranga, imortalizada por uma canção de Caetano Veloso, também foi minha “praia” nos tempos de dureza, quando pro...

VITÓRIA JÁ DEU COUSA MELHOR

      A cidade de Vitória de Santo Antão, a 48 km do Recife, era conhecida por causa da Pitu. Quem viajava para Recife divertia-se com a enorme garrafa na frente da fábrica à beira da BR 232, que há algum tempo passa fora da cidade, tirando essa atração dos viajantes. Vitória também era conhecida como terra do escritor Osman Lins, que teve um dos seus romances, "Lisbela e o Prisioneiro", transformado em novela pela TV Globo. Nos últimos dias, porém, a cidade vem ganhando espaço nos meios de comunicação por causa de uma de suas filhas, uma "influencer" que se orgulha de ter milhões de seguidores.  Levada à prisão, os fãs da influenciadora transformaram a frente do presídio feminino onde ela estava numa espécie de auditório de Silvio Santos. Em seguida, passaram a viajar até Buique, a 482 km do Recife, para tentar vê-la. Ela não canta, não dança, não dá dinheiro a ninguém, apenas esbanja riqueza em postagens exuberantes, sugerindo que qualquer u...

RUAS QUE VIRAM RIOS

  Todo dia amanheço pensando numa crônica. Seria algo simples, rápido, que qualquer pessoa pudesse entender. Não quero explicar porque o Rio Grande do Sul produz tanto vinho e tanta uva – até Gisele Bündchen – e é punido com tanta inundação. Nem sei e não posso explicar porque seus doutos professores universitários dizem entender o fenômeno das inundações, mas não conseguem resultados práticos na contensão das águas que cobrem casas e destroem tudo o que encontram pela frente. Para mim, leigo ao quadrado, é incompreensível os professores da Universidade Federal discorrerem durante horas sobre as providências necessárias para impedir as inundações - alguns até trabalharam nisso - sem nenhum resultado prático. É a mesma coisa que fizeram os especialistas em seca na Região Nordeste. Alguns foram eleitos deputados ou senadores à custa disso e o problema nunca foi resolvido. Aplausos aos voluntários que salvam gente, cães e gatos nos telhados e nos rios. Alguns deram a própria vid...

MÚSICA VIROU PASSATEMPO

  Sempre ouvi música de todo gênero, desde que meu pai tocava violino no coro da igreja e minha mãe ouvia rádio enquanto costurava para os filhos (9) e os vizinhos. Mais tarde, passei a ouvir concertos numa das mais belas salas do gênero no mundo - a Sala São Paulo, construída a partir de antiga estação da Estrada de Ferro Sorocabana. Como não me dediquei à música profissionalmente, chegando no máximo a dedilhar alguns acordes ao violão, não me tornei especialista em coisa alguma, a não ser em explorar em reportagens a vida e a obra e artistas. Durante alguns anos fui “especializado”, ao ponto de me pedirem textos a respeito de qualquer artista de sucesso, de forma a agradar ou atingir o público a que tal revista se destinava. Nunca esqueci o dia em que meu chefe de reportagem pediu em caráter de urgência um texto sobre Ronnie Von, que seria capa de Intervalo (Editora Abril) por ter alcançado primeiro lugar no Hite Parade com “Meu bem”. Entrevistava-o com frequência, ao ponto...

ENQUANTO ISSO...

  Enquanto a ópera Carmen volta ao Teatro Municipal de São Paulo, Regina Braga recita Castro Alves no Teatro Bravos e Madona canta e encanta na praia de Copacabana, cerca de 500 mil gaúchos sofrem com as chuvas que enchem os rios, derrubam as pontes, destroem as casas, matam e desalojam as pessoas. Ao mesmo tempo, o governador carioca-paulista não precisa de nenhuma tempestade, como os gaúchos, para destruir próprios do Estado, conforme denúncia da jornalista Eliana Silva Haberli no Facebook. Privatiza instituições como a Sabesp, o Metrô, a Pinacoteca, o Museu do Ipiranga, o Palácio dos Bandeirantes, e por aí afora.   Ninguém sabe aonde vai parar essa onda de privatizações. Já que nos referimos a jornalistas, sugerimos ao colega Luiz Novaes (ex-Folha, que anuncia hoje seu retorno à mídia) registrar esses “monumentos” ameaçados de privatização. Outro colega, o jornalista paraibano Assis Ângelo, que ficou cego após escrever inúmeras reportagens e vários livros em São Pau...

TIMIDEZ AO QUADRADO

  Nem era jornalista ainda - era bancário - quando editava o jornalzinho da categoria, cujo presidente era Antônio Fausto do Nascimento. Ao comentar uma peça que um grupo de amadores apresentou no sindicato desanquei a atriz principal, sugerindo que ela desistisse da carreira por que de atriz ela não tinha nada. Meu Deus! Até hoje me arrependo disso. A moça chorou vários dias. Pelo que me contavam, poderia tentar suicídio tal o desencanto de que se apoderou. Passei então a valorizar mais cada palavra. Se era tímido, tornei-me super tímido. Ao emitir opinião sobre alguma coisa repensava cada expressão, à moda de Osman Lins, que me confidenciou demorar um dia inteiro para produzir vinte linhas de um romance. Uma lembrança desse modo de agir ocorreu durante almoço na casa de velho amigo, quando ainda morava no Recife. À mesa, com esposa e três lindas filhas que eu amava mas não tinha coragem de confessar, o anfitrião sapecou: -- Você tem algo a haver com Jesus? E eu, natural...

VIVA SÃO PAULO!

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  Dos 470 anos de Sampa, aqui vivi 60. Ao desembarcar de uma Kombi no Brás em agosto de 1964 me hospedei no hotel Cavaleiro, na rua Cavaleiro. Tinha 27 anos, pouquíssimo dinheiro no bolso, e andava olhando para trás a fim de me certificar de que não estava sendo seguido. Afinal, acabara de sair do DOPS de Pernambuco, onde ficara 30 dias acusado de crime inafiançável: ser solidário ao prefeito do Recife, Pelópidas da Silveira – de quem era assessor de imprensa – e ao governador Miguel Arraes de Alencar, de quem era ardoroso fã.    Meus primeiros telefonemas foram para a Editora Abril, então na rua João Adolfo, e Última Hora, no Anhagabaú, onde já se encontravam outros jornalistas fugidos pelo mesmo motivo. O chefe da redação foi logo dizendo que não tinha mais vaga pra nenhum pernambucano. Já haviam acomodado uns 10, entre outros Múcio Borges da Fonseca, Eurico Andrade e Carlos Luís de Andrade – jornalista, advogado e ex-deputado. Mas foi outro telefonema que me ti...