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QUANDO O SELFIE FAZ FALTA

Uma das coisas que me fazem muita falta é a prática comum de fotografarmos nós mesmos ao lado de amigos, artistas ou autoridades durante encontros eventuais. A ideia me ocorreu esta semana quando perdi dois grandes amigos, com os quais convivi durante vários anos: o jornalista Milton Coelho da Graça e o também jornalista Antônio Fernando De Franceschi, que além de banqueiro era poeta. Natural de Pirassununga, Franceschi era uma espécie de mentor intelectual dos Moreira Salles, quando me convidou, por indicação de Milton, para trabalhar no processo de unificação do Unibanco – União de Bancos Brasileiros, muito antes de sua fusão com o Itaú. Editávamos - Franceschi, eu e um grupo de jornalistas - o “house organ” Jornal Unibanco, com 20 mil exemplares. Reuníamo-nos ora com os Moreira Salles, ora com entrevistados como Osman Lins, misturando atividades tipicamente bancárias com dicas culturais. O bom gosto dos Moreira Salles favorecia encontros e debates de natureza intelectual, daí a Fu

ADEUS, MILTON COELHO DA GRAÇA!

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    Última Hora era vespertino. Mais ou menos na hora do almoço Milton Coelho da Graça aguardava ansioso a chegada do repórter e do fotógrafo para produzir a manchete do jornal, que estaria nas bancas no meio da tarde. Depois de percorrer várias bancas apuradoras em busca de eventuais figuras políticas ilustres ou fatos inusitados, a dupla chega ofegante à redação sem nada que justificasse uma manchete, nada relevante, só andamento das apurações. -- Isso eu sei, pô, tá no rádio. Preciso de uma manchete! – grita Milton, desesperado. Solta  todos os palavrões que conhece e me ameaça de demissão por incompetência. “Como um repórter vai às ruas, percorre várias zonas eleitorais e não traz uma manchete?” –  pergunta, em desespero.  Fui “salvo” pelo fotógrafo Clodomir Bezerra, companheiro de jornadas, que produziu interessante material. Foi uma das aulas práticas inesquecíveis do meu primeiro chefe de reportagem, que não me demitiu. Ao contrário, mais tarde me indicou para um dos t

TRISTE PRIVILÉGIO

Desde o curso primário tinha por hábito me esconder nas últimas cadeiras. Pura timidez. Mantive o hábito nas centenas de assembleias de que participei no sindicato dos bancários do Recife e no sindicato dos jornalistas de São Paulo. Talvez não fosse apenas timidez, fosse também insegurança, derivada da falta de conhecimentos, me perguntando o que queria fazer da vida. A vantagem de me posicionar onde pudesse ter visão ampla do ambiente equivalia a da grande angular de uma máquina fotográfica. Minhas dúvidas impediam de fazer curso superior, de progredir, de enriquecer, de me tornar famoso, de me casar com uma milionária, de virar pessoa importante, ao menos presidente de um time de botões. Só me senti importante quando descobriram meu telefone, meu endereço, meu CPF e até meu número do SUS, só porque tenho prioridade na vacinação, aos 84 anos, pelo risco de morte iminente no caso de contrair Covid19. Agora sou o primeiro da fila – triste privilégio. Além de ler em paz, ver tele

DÚVIDAS, RECEIOS...

  O mundo não vai acabar no dia 1º de março, mas nesse dia serei vacinado contra o Covid19. Isso não garante nada, apenas dá alguma tranquilidade a quem tem 84 anos e várias comorbidades. Já me disseram que a vacinação não dispensa o uso de máscara nem os cuidados habituais. Mesmo assim, será um alívio para quem vive em isolamento e se priva de filhos e netos. Quem sabe agora possa conhecer a Serra do Rio do Rastro ou subir o Amazonas e o Negro. Graças ao You Tube, conheci ou revi todos os concertos para piano e orquestra de Beethoven, bem como grandes instrumentistas e cantores. Leio vários blogueiros, ouço inusitados programas de rádio, sem notar que minha audição anda uns 20% avariada. Ainda bem que estas dificuldades não impedem desfrutar as maravilhas do mundo, como o jornalista Assis Ângelo, que perdeu totalmente a visão após sofrer descolamento de retina. Antes da pandemia, por exemplo, visitei um amigo jornalista em Itu e constatei o folclore em torno do município. Foi fácil ac

ANTES QUE O ALZHEIMER ME PEGUE

                            Sou tentado, às vezes, a adotar a recomendação de aceitar apenas boas notícias, como o lançamento da terceira biografia de Nara Leão, por Tom Cardoso (editora Planeta). Antes, Sérgio Cabral e Cássio Cavalcanti haviam lançado suas versões. Muda o texto - não a história, de interesse dos estudiosos da MPB. Quando tento ir a fundo na vida e na obra dos cantores, devo estar querendo driblar dificuldades de entonação e pouco conhecimento do assunto. Durante algum tempo fiz disso meu ganha-pão, nas revistas Intervalo, Contigo, Amiga e no jornal A Gazeta, onde mantinha coluna de variedades que misturava pequenas notícias com comentários. Daí a me integrar à Associação Paulista dos Críticos de Arte foi um passo. Essa atividade me levou a integrar eventualmente o corpo de jurados de Chacrinha e Sílvio Santos. Admito que era melhor na máquina de escrever do que na arte de enfrentar um microfone. Por isso não fiz sucesso nos palcos. Fazia sucesso, isso sim, com

PROMESSA: CONHECER 46 MIL BARES

Prometi a mim mesmo conhecer um a um os 46 mil restaurantes de São Paulo. Promessa impossível de ser cumprida, apenas brincadeira de pandemia.  A tentativa  poderia ser facilitada pelo grande número de falências, já que pelo menos um terço desse tipo de comércio encerrou suas atividades, como todos sabem. Para dizer a verdade, muito antes dessa oportunidade proporcionada pela pandemia, conhecemos quase todos os bares do Bixiga, da rua Bela Cintra, dos diversos clube de campo, das principais estradas que saem de São Paulo, do topo dos prédios da Avenida Paulista, dos altos do antigo Banespa,  Terraça  Itália - enfim, já almoçamos até na Serra da Cantareira e no Pico do Jaraguá. Às vezes nos perguntamos como sobrevivemos a tão variados temperos e a eventuais desentendimentos.   De vez em quando observamos também que não há diferença entre certas feiras do Nordeste e o entorno do Mercado Municipal da Lapa, por exemplo, que visito com frequência. Aqui também tem de tudo, como na perfeita d

CADA DOIDO COM SUA MANIA

Alguns amigos e amigas choram com o resultado das eleições, decepcionados depois de alimentarem esperanças de vitória, baseando-se nos resultados de pesquisas. Sabe-se que o choro é um santo remédio, faz bem ao sistema nervoso e ao coração, mas nem todos reagem assim ao sofrerem uma derrota. Se fosse chorar toda vez que atingido por um revés criaria uma nova baía da Guanabara. Tenho de conter as lágrimas. Para ser franco, como tem acontecido em todos os desabafos, meu entusiasmo pela esquerda praticamente desabou a partir da revolução de 1964, quando literalmente me apertaram para revelar planos secretos de uma provável vitória comunista, ao qual sequer era formalmente filiado. Quando surgiu o PT não mexi uma palha. Não me entusiasmei nem um pouco com as ideias “revolucionárias” do conterrâneo Lula, que depois deram no que todos sabem. Não tinha carteirinha do partidão porque não era recomendável. Qualquer agenda de endereços ou telefones era vasculhada até a última vírgula, se enc