CADA DOIDO COM SUA MANIA

Alguns amigos e amigas choram com o resultado das eleições, decepcionados depois de alimentarem esperanças de vitória, baseando-se nos resultados de pesquisas. Sabe-se que o choro é um santo remédio, faz bem ao sistema nervoso e ao coração, mas nem todos reagem assim ao sofrerem uma derrota. Se fosse chorar toda vez que atingido por um revés criaria uma nova baía da Guanabara. Tenho de conter as lágrimas.

Para ser franco, como tem acontecido em todos os desabafos, meu entusiasmo pela esquerda praticamente desabou a partir da revolução de 1964, quando literalmente me apertaram para revelar planos secretos de uma provável vitória comunista, ao qual sequer era formalmente filiado. Quando surgiu o PT não mexi uma palha. Não me entusiasmei nem um pouco com as ideias “revolucionárias” do conterrâneo Lula, que depois deram no que todos sabem.

Não tinha carteirinha do partidão porque não era recomendável. Qualquer agenda de endereços ou telefones era vasculhada até a última vírgula, se encontrada ou aprendida. Minha modesta biblioteca, no 17° andar do edifício Holliday, em Boa Viagem (Recife) foi enterrada num quintal, com ajuda (pasmem), de policiais da PA (Polícia da Aeronáutica), com o objetivo de evitar o fornecimento de subsídios para uma condenação.  Os amigos não eram subversivos. Eram seresteiros, que recorriam a meus serviços de violonista para extravasar sentimentos em valsas e sambas canções que eu acompanhava ao violão.

A ideia de enterrar livros e fotos foi de uma namorada. Ela não tinha a menor simpatia pelos meus eventuais sentimentos, mas conhecia meus amigos e sabia do envolvimento de todos com o movimento em prol do socialismo. Ela mesma tinha irmão poeta, não necessariamente socialista, mas sonhador como eles. Por isso, cedeu um cantinho de seu quintal para o inusitado enterro. Ela sabia como ninguém dos perigos de tal iniciativa, pois a documentação incluía fotos de uma viagem a Cuba onde a delegação brasileira de visitantes fora recebida pela dupla Fidel Castro e Che Guevara. Naquela época, como se sabe, os interrogatórios não se limitavam a perguntas e respostas, daí o cuidado de esconder tudo o que representasse prova.

Preso, carreguei meu depoimento de ideias de seresteiro e poeta, com amplo conhecimento dos piores e melhores botecos recifenses - do Bar Savoy, onde me deleitava com Ascenso Ferreira e José Wilker, ao luxuoso Hotel Central onde bebericava com Renato Campos.

Eis a que nos leva o isolamento. No momento em relembro tais fatos, um velho amigo, Romero Figueiredo, pergunta onde anda o psiquiatra Frederico Sérgio, médico que migrou com outro companheiro, Roberto Chabo, para lutar por dias melhores no Rio de Janeiro. Fred continua fazendo versos, com mais de 90. Tinha fama de doido. Ainda hoje vai diariamente ao consultório, onde recebe amigos para recitar poesias, de cunho comunista, naturalmente.  Cada doido com sua mania.

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