Postagens

PROMESSA: CONHECER 46 MIL BARES

Prometi a mim mesmo conhecer um a um os 46 mil restaurantes de São Paulo. Promessa impossível de ser cumprida, apenas brincadeira de pandemia.  A tentativa  poderia ser facilitada pelo grande número de falências, já que pelo menos um terço desse tipo de comércio encerrou suas atividades, como todos sabem. Para dizer a verdade, muito antes dessa oportunidade proporcionada pela pandemia, conhecemos quase todos os bares do Bixiga, da rua Bela Cintra, dos diversos clube de campo, das principais estradas que saem de São Paulo, do topo dos prédios da Avenida Paulista, dos altos do antigo Banespa,  Terraça  Itália - enfim, já almoçamos até na Serra da Cantareira e no Pico do Jaraguá. Às vezes nos perguntamos como sobrevivemos a tão variados temperos e a eventuais desentendimentos.   De vez em quando observamos também que não há diferença entre certas feiras do Nordeste e o entorno do Mercado Municipal da Lapa, por exemplo, que visito com frequência. Aqui também tem de tudo, como na perfeita d

CADA DOIDO COM SUA MANIA

Alguns amigos e amigas choram com o resultado das eleições, decepcionados depois de alimentarem esperanças de vitória, baseando-se nos resultados de pesquisas. Sabe-se que o choro é um santo remédio, faz bem ao sistema nervoso e ao coração, mas nem todos reagem assim ao sofrerem uma derrota. Se fosse chorar toda vez que atingido por um revés criaria uma nova baía da Guanabara. Tenho de conter as lágrimas. Para ser franco, como tem acontecido em todos os desabafos, meu entusiasmo pela esquerda praticamente desabou a partir da revolução de 1964, quando literalmente me apertaram para revelar planos secretos de uma provável vitória comunista, ao qual sequer era formalmente filiado. Quando surgiu o PT não mexi uma palha. Não me entusiasmei nem um pouco com as ideias “revolucionárias” do conterrâneo Lula, que depois deram no que todos sabem. Não tinha carteirinha do partidão porque não era recomendável. Qualquer agenda de endereços ou telefones era vasculhada até a última vírgula, se enc

GRITOS NÃO ATINGEM TÍMPANOS

Ao chegar na redação de Última Hora todas as tardes cumprimentava meu chefe com um sonoro “boa tarde”, ao que ele respondia “boa tarde por quê?”, na mais explicita manifestação de mau humor. Não dizia mais nada, com medo de receber mais uma patada. O chefe da redação era normalmente uma pessoa bem educada, chegava a ser doce, mas de vez em quando estourava na mesma linha dos que tem a responsabilidade de produzir um jornal vibrante, que pudesse se sobrepor aos concorrentes. Queria furos, algo que não fosse igual aos outros, daí a tensão. Anos depois encontro Múcio Borges da Fonseca na sauna Chuí, em São Paulo, ele tentando recuperar-se de um infarto do miocárdio, eu tentando controlar pressão alta e diabete. No máximo, arriscávamos um chopinho após a suadeira. Pagávamos o preço de uma vida de altos e baixos, em que lidamos com tudo e com todos a troco de noticiar e comentar as insanidades de cada um, esquecendo as próprias. Isso é o jornalista. No dia seguinte à eleição, o chefe

DATENA E AGUINALDO SILVA

Imagem
  l Um, fala pelos cotovelos. Diz o que lhe vem à cabeça, de qualquer maneira, sem a menor preocupação com as consequências e muito menos com o pobre Português. Outro, mais vaidoso ainda, solta a franga com certa dignidade, com a quase finura de quem quer mostrar educação. José Luís Datena e Aguinaldo Silva trocando farpas pela televisão e pela internet era tudo o que faltava numa semana tumultuada pela discussão do mandato de Eduardo Cunha e da eleição de seu sucessor na presidência da Câmara dos Deputados. Felizmente o telespectador passou batido. Não houve a repercussão que os contendores esperavam ou os telespectadores não quiseram dar trela. Bom para todos nós, que poupamos nossa inteligência. A peleja serviu ao menos para despertar a curiosidade em torno do novo livro de Aguinaldo, “Turno da Noite, memórias de um ex-repórter de polícia” (Objetiva). Como se sabe, além de várias novelas, todas líderes de audiência, Aguinaldo Silva é autor de vários romances, e nesse aspecto dá um b

NETAS NA JANELA

  Posso escolher a reforma administrativa, a pichação desenfreada dos edifícios, a invasão das praias, os helicópteros rondando sobre minha cabeça a cada minuto, ou ficar admirando o vai e vem de vizinhos caminhando para lá e para cá com crianças ou cachorros, todos entregues à mesma pasmaceira. Posso pensar em qualquer coisa para ocupar o tempo nessa quarentena que já dura seis meses. Na verdade, não é preciso me preocupar com o que fazer, o que ouvir. Quem mora em condomínio popular não sofre com isolamento. Não precisa ligar rádio ou TV, tal a proximidade dos apartamentos, nem de binóculo para assistir cenas de novela pra Aguinaldo Silva nenhum botar defeito. Além disso, os temperos entram e saem pelas janelas, denunciando o tipo de almoço que será servido logo mais. Pelo cheiro, dá para saber até o cardápio. Diante de tamanha oferta de lazer a domicílio vou consultar um sebo para vender minha biblioteca, já que não preciso mais dos meus livros. Ouço e vejo histórias ao vivo e em

MINHAS CENAS INESQUECÍVEIS

1 – Chego para trabalhar na Editora Abril e me deparo com algumas pessoas sentadas na sala de espera para falar comigo. Cumprimento-as. A representante da gravadora me apresenta uma nova cantora, Gal Costa, e me oferece seu primeiro disco. Aperto-lhe a mão e digo: encantado. Nos anos seguintes muitas entrevistas se sucedem, até o ponto em que ela nem sabe mais quem sou. 2 - O poeta Ascenso Ferreira numa das mesas do Savoy, em plena avenida Guararapes, Recife, declamando “ora de dormir - dormir!; ora de vadiar – vadiar!; hora de trabalhar? Pernas pro ar que ninguém é de ferro!” Ouvintes de todas as noites, mais tarde famosos: José Wilker, Aguinaldo Silva, Luís Mendonça, Nelson Xavier, entre outros. Quando a manhã ameaçava, José Wilker me pedia dinheiro para tomar o ônibus de Olinda, cujo ponto inicial era do outro lado da avenida. Tomava o primeiro do dia. 3 - Fui entrevistar Muhammad Ali, nascido Cassius Marcellus Clay, um dos mais importantes pugilistas do mundo, no hotel San Raphael

PERSONAGEM DE ROMANCE

  Todo mundo tem um amigo pra chamar de seu. É aquele que não pode ver nada errado e vai logo detonando. Pode ser qualquer coisa, desde um pingo d’água na torneira, um vizinho arrastando o pé no andar de cima, um motoqueiro em disparada com escapamento aberto, uma pessoa sem máscara ou o preço da carne, cada vez maior. Não precisa muito, basta olhar com cara amarrada, pergunta logo o que foi. Ai do interlocutor se não se mandar imediatamente. Pode levar no mínimo uma peitada. Meu amigo é daqueles que ralaram a vida inteira para criar os filhos, acordando de madrugada e voltando à noite, sem dispensar uma passadinha no boteco, que ninguém é de ferro. Se um dos filhos demorasse mais do que dez minutos no banheiro não perguntava duas vezes: arrombava a porta. Ai da menina se fosse flagrada aos beijos com um coleguinha do colégio. Quando o garçom serviu a mesa ao lado antes que a nossa, que chegamos primeiro, jogou o coco verde em direção ao pobre coitado, que só não foi para o pront