NETAS NA JANELA

 

Posso escolher a reforma administrativa, a pichação desenfreada dos edifícios, a invasão das praias, os helicópteros rondando sobre minha cabeça a cada minuto, ou ficar admirando o vai e vem de vizinhos caminhando para lá e para cá com crianças ou cachorros, todos entregues à mesma pasmaceira. Posso pensar em qualquer coisa para ocupar o tempo nessa quarentena que já dura seis meses. Na verdade, não é preciso me preocupar com o que fazer, o que ouvir. Quem mora em condomínio popular não sofre com isolamento. Não precisa ligar rádio ou TV, tal a proximidade dos apartamentos, nem de binóculo para assistir cenas de novela pra Aguinaldo Silva nenhum botar defeito. Além disso, os temperos entram e saem pelas janelas, denunciando o tipo de almoço que será servido logo mais. Pelo cheiro, dá para saber até o cardápio.

Diante de tamanha oferta de lazer a domicílio vou consultar um sebo para vender minha biblioteca, já que não preciso mais dos meus livros. Ouço e vejo histórias ao vivo e em cores 24 horas por dia. Tenho até um vizinho parede meia que vive me pedindo para contar a vida dele - uma história e tanto. Sugeri contratar outro redator, não sujeito a inevitáveis influências de quarenta anos de convivência. Foi umas dez vezes candidato a deputado federal e quando candidato a vereador em São Paulo só conseguiu uns mil, quando precisa de 80 mil votos. Com fervor espírita, aborda pessoas oferecendo ajuda, sendo que ele também precisa. Tem vocação para santo, mas se conforma com retratos de Allan Kardec e Chico Xavier pelas paredes de sua casa.

Outra vizinhança inesquecível era constituída de gerentes de banco, que se reuniam aos sábados nos botecos da Lapa de Baixo. Todos de sobrenome Brandão, primos ou sobrinhos do criador do Bradesco, Lázaro Brandão. Era a oportunidade de recordar meus quatro anos de bancário, quando ainda se trabalhava apenas seis horas por dia. À noite fazia revisão no Jornal do Commercio, até Samuel Wainer lançar Última Hora no Recife e eu virar repórter, pelas mãos de Milton Coelho da Graça. Meu único desgosto era nunca ter visto Danusa Leão. Tinha de me contentar com a presença de Celso Marconi que neste mês fez 90 anos e de Aguinaldo Silva nos seus buliçosos 16 anos, além de Aluízio Falcão, Eurico Andrade, Múcio Borges da Fonseca e outras figuraças do jornalismo pernambucano.  

Em meio a tantas lembranças agradáveis proporcionadas pelo isolamento falta recordar os tempos em que acompanhava Zodja Pereira para ensaios de balé no Teatro Santa Isabel, os concertos da sinfônica com Vicente Fitipaldi e as noitadas lítero-musicais na casa de Gastão de Holanda na rua das Pernambucanas, bairro das Graças. Não é saudosismo inútil, apenas registro de momentos insubstituíveis.

Não importa se todos esses nomes não significam nada para o leitor eventual. Importa que meu mundo ainda não caiu, como o de Maysa, e ainda posso ver o sol, a lua, as estrelas e minhas netas na janela.

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