ASSIM, VOU VIRAR "CULT"



Se continuar assim (esse isolamento compulsório) vou acabar “cult”. Já ouvi todas as sinfonias e concertos para piano e orquestra de Bethoven por diferentes conjuntos do mundo; vejo e ouço dia e noite competentes e lindas pianistas (Yuja Wang, Júlia Fischer, Katia Burniatsvili, Lola Astanova, etc.) e antes de dormir, só para acalmar o espírito, ouço a rádio USP. Esta, como se sabe, entrevista professores de alto nível sobre palpitantes assuntos de atualidade.
Quando o som me cansa ou incomoda puxo velhos livros de minha modesta biblioteca, pego preferencialmente um daqueles que comprei em noite de autógrafo e não tive tempo de ler, ou releio velhos conhecidos que outrora me agradaram, como “O amor nos tempos do cólera”, de Gabriel Garcia Marques, ou “Crime e Castigo”, de Dostoievsky, que li quando servia na Base Aérea do Recife.
Vai aqui uma explicação pertinente. Era cabo almoxarife. Fornecia peças aos mecânicos que faziam manutenção de aviões, principalmente no período da manhã. À tarde, bocejava no balcão. Comprei então uma coleção inteira de Dostoievsky, que devorava nas tardes modorrentas. Até que meus superiores me flagraram e passaram a desconfiar de minhas pretensões ideológicas. Deixei então a carreira militar e passei a viver outras histórias, que não as dos romances russos, em geral tristes.
A continuar assim isolado, logo terei condições de debater com professores como meu filho Paulo Tiné, violonista e professor titular de música na Unicamp, ou com minha nora, Paola Picherzky, também violonista, integrante do grupo Choronas e professora das Faculdades Santa Marcelina e da Fundação de Artes de São Caetano. Mas aí seria muita pretensão. Prefiro esperar a volta dos concertos da Osesp, que frequento desde quando a orquestra se afinava com Eleazar de Carvalho e eu subia a serra para ouvir seu desempenho nos festivais de Campos do Jordão.
Resta-me agradecer ao coronavírus os inusitados momentos que me tem proporcionado. Se ele não me pegar de surpresa, poderei, quem sabe, marcar uma visita a Ethevaldo Siqueira e perguntar como se faz para assistir ao vivo, como ele faz, todos os concertos do mundo. Por enquanto, consigo apenas acessar o YouTube.

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