SUPOSTOS PRIVILÉGIOS





Todos os anos, quando viajava para festejar Natal e Ano Novo com familiares no Recife, minha mãe vaticinava: "No próximo você não me encontrará mais aqui". Um dia não houve o próximo: fui às pressas ao velório dela.
No Natal de 2018 fui de bengala, com as prioridades previstas de entrar no avião na frente de todo mundo e sentar na primeira fila de cadeiras. Nos corredores do aeroporto e no interior do avião o olhar de todos era quase como bala perdida, não se pode evitar. Não sabia se era de piedade, indiferença ou medo.
Em janeiro de 2020 evitei viajar. Caminho com dificuldade, apesar das tentativas de corrigir cirurgicamente a artrose lombar e cervical.
Mesmo assim, tem sido divertido ir ao cinema, preferencialmente na sessão das 14 horas, quando desfruto de outro privilégio: sinto-me jovem, em meio a tanta gente com bengalas e demais tipos de apoio.
Apesar de tudo isso, não levo a sério tais percalços. Não dispenso a ida quase diária ao shopping da Livraria Cultura do Conjunto Nacional (São Paulo), onde frequento sessões de autógrafos, faço alguma refeição leve e folheio algum livro.
Não é como a Esquina da Sertã, no centro do Recife - onde encontrava, entre outros, Aguinaldo Silva, Luís Marinho, José Wilker ou qualquer velho amigo da Capital ou do Interior, para intermináveis bate-papos - mas tem suas surpresas. Há sempre alguém disposto a bater papo, embora a maioria permaneça de olho nos Smartphones.
É lá que encontro, por exemplo, ex-companheiros de trabalho, médicos que têm consultório nas proximidades e até a incansável Roseli Tardeli, criadora de uma agência de notícias voltada especialmente para as doenças sexualmente transmissíveis, após perder um irmão para a AIDS.
Outro dia encontrei a enfermeira Ritsuko Tanida, que há anos mantém coerente luta pelos direitos humanos no HCFMUSP, e a jornalista Cirlene Leite, que foi por quatro anos secretária de Cultura em Garanhuns, entre outras coisas. A livraria tem suas surpresas. Ficar ali à-toa não nem sempre é perder tempo.
Na década de 60 eu frequentava a Livraria Brasiliense, na rua Barão de Itapetininga, onde encontrava, entre outros, Caio Gracco Prado e Luís Schwartz, que editava um jornalzinho sobre livros.
Outros tempos e outras histórias, quando livros de conteúdo eram mais importantes que best sellers e cafezinho não era apenas para selfies e troca de what sapp.

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