ARREMEDOS DE MORALIDADE




Como aposentado, não tenho necessidade de acordar cedo e sair correndo para o trabalho, como fiz durante anos. Tenho insônia, não sei se por algum distúrbio neurológico ou se pela inquietação vigente. Não uso medicamentos para dormir, mesmo sob prescrição médica. Prefiro ouvir os locutores da madrugada atirando contra tudo e contra todos. Algumas vezes dizem verdades, outras fazem acusações genéricas e infundadas, mas pelo menos não deixam de dar o seu recado.
Locutores tanto erram como acertam, como qualquer um de nós. Criticam a saúde pública, a (in) segurança, a má qualidade dos transportes e os buracos das ruas. Alguns são irritantes. Reclamam do preço das mercadorias, da violência no trânsito, das baladas e de toda sorte de incômodos que perturbam os que não conseguem dormir.
No condomínio onde moro há 50 anos não tem nada disso. Qualquer barulho depois das 22 horas é imediatamente reprimido senão pela Polícia, pelos próprios vizinhos. Um deles me acordou em plena madrugada para pedir que abaixasse o volume do rádio que, diga-se, não estava tão alto assim. Só depois constatei que tenho prejuízo de 20% na audiência.
Como vítima do sistema que não conseguiu diploma de curso superior gostaria de ser o primeiro a protestar contra o contingenciamento de verbas para educação. Faço o que posso de meu teclado: envio recados e solidariedade em forma de crônicas ou de sonetos. 
Tudo bem que operações tipo Lava Jato vieram para valer, atingindo gregos e troianos. Tudo bem que a Justiça arregace as mangas e prendam figuras carimbadas, tirando de cena ladrões de casaca e almofadinhas. Infelizmente, mais cedo ou mais tarde, todos estarão soltos.
A decepção anda querendo invadir meus neurônios, se é que eles ainda existem. Sou obrigado a me contentar com arremedos de moralidade.

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