PERSONAGEM DE INFÂNCIA


Aqui em Sampa tem muitos feriados, mas nem sempre tem Sol. Em compensação, tem muitos parques, jardins e largas avenidas fartamente arborizadas onde se pode caminhar, correr, usar bicicletas ou patins e fazer de conta que os prédios são uma floresta. Não à toa chamavam São Paulo de selva de pedra.
Como não tenho sítio, fazenda nem casa na praia, nem gostaria de enfrentar monstruosos congestionamentos, irei ao parque de Água Branca onde hoje simulam a vida do Interior, com barracas onde se come e se bebe como se estivéssemos numa casinha de palha.
Vou lembrar o tempo em que aos quatro anos via meu avô tirando leite no peito da vaca e fazendo farinha, na beira do rio Ipojuca, em Chã Grande, que de grande tinha apenas o coração de sua gente.
A vila tinha apenas uma rua em que os moradores colocavam roupa no varal e dormiam tranquilos, sem perceber que algumas vestes femininas eram surrupiadas à noite e devolvidas antes de chegar o Sol.
Era Antônio Combinação, que tinha por hábito vesti-las para discreto desfile madrugada a dentro. Ele adorava quando era percebido por algum madrugador, ao qual não negava explicações: seu sonho mesmo era ser mulher. Detestava aquele troço estranho entre as pernas e buscava na escuridão uma oportunidade de viver sua verdadeira identidade.
Não havia ainda cirurgia de troca de sexo. Curiosamente, a população era pacata e condescendente, ao ponto de não se queixar do eventual desaparecimento de alguma "combinação", como então chamavam a roupa íntima que as mulheres costumavam colocar sob os vestidos.
Gostaria de trazer meu inesquecível personagem de infância à Avenida Paulista num domingo. Com certeza ele teria um orgasmo a cada esquina e agradeceria àquela gente amiga que na década de 40 do Século passado jamais condenou sua incrível performance. Pelo contrário. Aplaudiam e se divertiam com bom humor. Quem diria!

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