O QUE É PIOR?



O que é pior? Ver e ouvir o noticiário na TV, acompanhar sua repercussão no Facebook ou aguentar os comentários dos locutores de plantão,  dos vizinhos indignados e   dos amigos "solidários" a respeito das notícias?
Cada um dá  sua "versão" boquirrota.
Além disso, temos de conviver com o aumento do feminicídio, do desemprego, dos assaltos, da violência generalizada, todas essas desgraças que se sucedem e alimentam os noticiários.
Há também os que protestam mudando-se para Portugal.
Honestamente, nunca entendi esse gesto. Seria como o filho que deseja sair  por não se sentir bem em sua própria casa?
Pior, pior mesmo, é ver caírem um a um os nossos ídolos, os homens que nos inspiravam e nos levavam a sonhar com uma revolução justa, comunista ou socialista, qual a diferença?
Quando surgiu o PT, muita gente alimentou alguma esperança. Deu no que deu, para surpresa de todos. Nas últimas eleições a longevidade (mais de 80) me desobrigou de votar, poupando-me de lutar contra o Partido dos Trabalhadores. Embora não tendo essa intenção, foi isso o que ocorreu. 

Admito que a essa altura, se tivesse de empreender alguma luta, escolheria outros inimigos, menos as esquerdas. Preferiria não lutar contra os que defendem as minorias. Fui demasiadamente tolerante a vida inteira. Não seria ao fim de inglória jornada que iniciaria nova batalha. 
Minhas crônicas balançam entre as lutas da juventude, quando colocava Che na parede e Arraes num pedestal, à conveniência do silêncio quando me dedicava à Jovem Guarda, como divulgador de ídolos como Roberto Carlos, que a ditadura adorava sobrepor às suas perseguições políticas, com prisões e torturas. É verdade que na Abril acolhíamos também a trupe baiana - Caetano, Gil, Betânia e Gal à frente - com suas mensagens ora sutis, ora escrachadas. Se de alguma coisa me arrependo é não ter guardado ou gravado o que conversávamos nos bares da Galeria Metrópole, em cujas mesas bebíamos com Chico Buarque e outros, até Vinicius de Moraes eventualmente, quando vinha a São Paulo. 
Assim, a ditadura alimentava certa displicência, em que perdíamos a noção do justo e do injusto, do bom e do melhor, bastava sobreviver.
 Felizmente não perdi a noção do que é pior. Do jeito que vão as coisas, nada.

(Prefácio de novo livro de crônicas em editoração)

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