ABRACE UMA CAUSA




Já não sei por que ou por quem lutar. Na juventude, lutava genericamente pela humanidade, abraçando o socialismo, colando retratos e frases de Fidel e Guevara na parede, gritando o petróleo é nosso e frases do gênero. Passada a rebordosa de 64, aquietei o facho e fui repórter de variedades, entrevistando cantores mambembes da Jovem Guarda e vibrando com Chico Buarque e Elis Regina, seus colóquios ambíguos e palavras de ordem ora sutis, ora escancaradas. Quando estouravam casos como o de Herzog, quase molhava as calças e ajudava os colegas do jornal a escolher poemas antigos para tapar buracos das páginas censuradas.
Deu certo. Um dia os militares se convenceram de que não podiam continuar tripudiando sobre os inimigos e fizeram acordo, presenteando amigos e revoltosos com a Lei da Anistia. Desde então ocorreram muitos episódios, como a queda do Muro de Berlim e o desmantelamento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).
Hoje as causas são outras. Vão da luta contra a destruição da Amazônia à defesa dos imigrantes africanos, sem esquecer a campanha pelo uso do cinto de segurança nas viagens, lançada hoje, o alerta contra os feminicídios, os gritos contra buracos nas estradas e as ações pelo direito dos doentes raros a medicamentos gratuitos. Poderia encher uma página de causas a abraçar. O Governo prefere lutar para retirar radares nas estradas, que considera mero caça-níqueis de arrecadação compulsória, ou reduzir o número de pontos na carteira de motoristas infratores.
Eu já abracei várias, a começar por uma espécie de Gisele Bündchen do ginásio em que estudava em minha humilde Miraí, quer dizer: Gravatá. Bastou mudar de cidade para eleger outras, e outras, até chegar em Miguel Arraes de Alencar, influenciado por Paulo Cavalcanti e Hiram de Lima Pereira. Cito nomes para dar cunho veraz às recordações, mas nem precisava, qualquer um entende do que se trata.
Chega um momento em que é preciso pensar em novos interesses. Não basta tentar reviver o passado, culpar ou redimir líderes legítimos ou falsos, nem martelar na redenção de ídolos consagrados. Muitos já morreram. Falta nascer alguém que não se limite a inventar a roda.
Mesmo assim, abrace uma causa, ainda que sem esperança.

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