JORNALISTA, COMUNISTA E ATOR



Não pretendo ser polêmico como Bolsonaro, que atropela o eleitor com manifestações intempestivas, nem discreto como Alckmin, que a sabedoria popular apelidou de picolé de chuchu por causa de seu excesso de cuidado no que fazia e dizia. Poderia dizer que minha única virtude seria ficar em cima do muro, torcendo para que as coisas não ultrapassassem minha linha do Equador.
Talvez por essa melancólica discrição -- ou seria timidez? – saí das perseguições políticas de 64 praticamente incólume, após permanecer cerca de 30 dias ora sentado, ora recostado em ombros de amigos, nos bancos de madeira da rua da Aurora, no Recife. Não fui torturado, nem condenado, mas quase me chamaram de bicha, ao admitirem minha mania de poeta e porque me comportava como um intelectual, pedindo algo para ler.
Realmente, não posso esquecer que lia muito na época e convivia harmonicamente com os diversos grupos culturais que fervilhavam em torno do Movimento de Cultura Popular (MCP). Daí, talvez, a atenção especial que dedicavam ao grupo a que normalmente era ligado.
Nos interrogatórios, a única ação exibida como flagrante, documentada em fotografias, eram entrevistas coletivas no Palácio do Governo, nas quais eu era visto entrevistando o governador Miguel Arraes para o jornal Última Hora. Não era um comunista, e sim um jornalista exercendo sua nobre missão de perguntar. Jornalista não é necessariamente um comunista -- insistia.
Todas as vezes que me chamavam para interrogatório eu negava a condição de perigoso agente do comunismo internacional. No máximo admitia ser um modesto simpatizante de Miguel Arraes. Naquela época, como se sabe, falar grosso significava levar porrada, ser conduzido para uma delegacia de bairro e permanecer lá por vários dias ou meses como desconhecido. A alternativa era agir como ator num teatro improvisado. Afinal, no MCP discutíamos Stanislavsky.

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