ODEIO DECORAÇÃO

Há muitos anos lido com a obsessão dos que se preocupam com os menores aspectos da decoração de sua casa. O que para a grande maioria das pessoas é essencial, para mim é trivial. Nunca me preocupei com a cor da parede, o tipo de sofá na sala, a luz incidente ou o chão, se de cerâmica ou madeira. Tampouco com a cor de um carro. Toda vez que resolvo trocar de automóvel o atencioso vendedor faz a pergunta inevitável: qual a cor que deseja? Tenho a resposta pronta: qualquer uma. Para mim não interessa a cor, mas o desempenho.
Não me perguntem por que essa despreocupação com detalhes. Deve ser por isso que nunca fui bom em matemática. Por ironia, quem sabe, tenho uma filha que se formou no Instituto de Matemática da USP.
Paguei um preço muito alto, certa vez, quando comprei minha primeira geladeira. Ao contar aos colegas de trabalho, alguém perguntou na bucha:
- Quantos pés?
- Quatro - respondi orgulhosamente.
Um consolo é que nem sempre os números me são desfavoráveis, como demonstro com alguns exemplos. Fui cinco ou seis vezes ao exterior e conheci dezenas de países - nove, ao todo, ou onze, se considerarmos Vaticano e Mônaco como tais. Nunca perdi a chave do apartamento nem tive qualquer aperreio por causa disso, ao voltar. Conheço alguns casos de amigos que tiveram de chamar chaveiros para entrar em casa na volta de uma viagem. Nunca perdi passaporte, não me perdi nas madrugadas de muita neblina de Amsterdam, nem paguei qualquer mico, mesmo não sendo versado em outras línguas além do portunhol.
Devido a certa timidez, nunca fui bom em conquistas. Mesmo assim, quando o golpe de 64 me obrigou a comer o picadinho do xadrez da Rua da Aurora, no Recife, durante 30 dias, duas namoradas me traziam comida caseira, para alegria dos companheiros, com os quais dividia a fartura de boa qualidade. Houve um dia em que uma de minhas cinco irmãs também levou uma quentinha. Foi uma festa. Assim, pelo menos em matéria de mulheres minha matemática é generosa. E tenho quatro netas.
Há 45 anos moro num mesmo apartamento. Eventuais visitantes insistem em que deveria trocar o piso, colocar uns lustres, mudar as cortinas, coisas assim. Justifico meu desinteresse contando que não há um só dia, mesmo o mais chuvoso, em que não me espiche até um parque, um cinema, um restaurante ou um concerto, na tentativa de consertar minha solidão.
Ao contrário de João Gilberto, que há anos não desce de seu apartamento nem para assistir ao desfile das garotas de Ipanema, saio até para tomar café no bar da esquina. Quanto a decoração, nem me lembro.

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