CRUZ CREDO





Fiquei umas duas horas na recepção de um hospital esperando para ser atendido por um médico. Só no dia seguinte entendi que aquilo era depressão ou o mais nítido sinal, que não soube ou não quis detectar, evitando assim um escândalo normal em tais circunstâncias. 
Este sou eu, matutei convicto de minha absoluta incompetência quando tripudiam sobre minha cabeça, ou dá cabeça aos pés. 
A única vez que me rebelei foi quando me atiraram de brincadeira num açude de grande profundidade e me debati até à margem, mesmo sem saber nadar. Assim, de açude em açude, passei dos oitenta. 
Hoje, quando sento na recepção de um consultório médico, lembro das águas calmas sobre as quais deslizei tranqüilamente no rio Ipojuca. 
Não conhecia ainda nenhuma deusa para me embevecer. Elis Regina não havia nascido, nem as filhas de Hiram Pereira. Meu encanto era o violão de Antônio Rago e a voz de Orlando Silva. Quando me dei conta, tava nadando em praias do Caribe, lá  pras bandas de Pina del Mar.
Volto às poltronas do consultório cheio de desgosto, desta vez por não ter visto ainda o balé Bolshoi in loco. Na TV, já vi até Paco de Lucia.
Ando naquela fase em que ao chegar da rua hesito em sair do carro, pensando se vale a pena entrar em casa e repetir à exaustão o liga-desliga, esquenta-esfria, abre-fecha janela, abre um livro, uma revista ou um jornal mas acaba mesmo é no wattsap. Pior: ultimamente, a cada dia, mais um se vai. O último foi Clóvis Rossi, que me acolheu no Estadão quando saí da Abril. Cruz credo.

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