VAGAS LEMBRANÇAS

Houve um tempo em que nadar no rio Ipojuca era mais agradável do que nadar em Ipanema. Obviamente, não havia nenhuma Helô Pinheiro. Talvez houvesse algo parecido na figura de Regina ou Marta, coleguinhas de ginásio, mas nenhuma delas usava biquíni. No máximo, mostravam as coxas na hora da educação física obrigatória.
Houve um tempo em que eu ia à missa não para rezar, mas para venerar as beatas que sorriam em grupo como se estivessem no paraíso. Elas olhavam piedosamente para a imagem de Sant’Ana mas a gente supunha, tinha quase certeza, de que olhavam para o padre, um atraente jovem que acabou casando com uma delas.
Houve um tempo em que eu tinha uma cidade inteira a meus pés. Do alto da torre da igreja via a pequena multidão caminhando em direção ao cemitério, enquanto badalava os sinos para anunciar ou acompanhar o enterro que poderia ser de um pecador ou de um anjo. Eu não era nenhum anjo. Ganhava uns trocados para badalar os sinos enquanto o cortejo prosseguisse rua afora. Só parava quando o caixão repousava no buraco previamente preparado.
Houve um tempo em que tinha a cidade inteira em minhas mãos, quase literalmente. Vendia ingressos do Cine Holanda, o único. Até Regina e Marta, de quem lembrei algures, entravam na fila para comprar entrada. Fazia um esforço para entregar o troco de tal forma que pudesse sentir levemente aquelas mãos. Certa vez fui mais ousado: pedi que guardassem um lugar pra mim. E sentei ao lado de Marta como se estivesse no céu. Lá prás tantas, ela segurou minha mão. Ai meu Deus, lembro até hoje.
Houve um tempo em que tive de partir. A cidade era pequena para meu pai com oito filhos pra criar. De longe, mandei muitas cartas e recebi poucas respostas. Caí no mundo em busca de não sei quê e quando volto à minha pequena cidade lembro de cada banho de rio, cada filme, cada aperto de mão. Naquele tempo, não havia abraço nem “pegação” e só se lia “Iracema”. Ah se arrependimento matasse!

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