INVEJA BRANCA



Ao ler os jornais, hábito que não abandonei apesar da proliferação de outros tipos de leitura, sinto especial atração pelas crônicas, comentários ou opiniões de abalizados escritores, economistas ou sociólogos, que argumentam sobre assuntos os mais diversos, com ou sem qualquer relação com o momento.
Mas não é nenhum FHC ou qualquer famoso que faz minha cabeça. Gosto de simples jornalistas, não necessariamente professores da USP, que deslizam sobre assuntos comezinhos, para gáudio de minha inculta formação. Gosto de textos como os de Ruth Manus, que no Estadão de ontem nos deu lição de amor à avó: “Queria ser para algum ser humano a mesma coisa que dona Rita, minha avó, é para mim” – resume a cronista em deliciosa crônica. Numa feliz alusão ao dia de Santa Rita, que por coincidência foi comemorado ontem, 26 de maio, a cronista acrescentou: “Há quem seja devoto de Santa Rita de Cássia, eu sou fiel devota de dona Rita de Cássia”.
Certa vez perguntei ao amigo Osman Lins, misto de bancário e escritor com quem almoçava às vezes no agitadíssimo centro de São Paulo - ele trabalhava no Banco do Brasil da rua Álvares Penteado e eu no Unibanco da rua da Quitanda - qual o segredo de chamar a atenção dos leitores apelando apenas para as palavras, simples palavras, e ele me lembrou sutilmente a necessidade de encontrar a palavra certa, ou a frase certa para cada situação. Disse que levava um dia inteiro para redigir vinte linhas.
Não espero conquistar o leitor com essas vinte linhas, feitas em vinte minutos, praticamente ao correr da pena, como se dizia antanho. Continuarei morrendo de inveja dos doutos cronistas convidados pelos jornais. Quem sabe algum dia chegue aos pés de Ruth Manus.

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