À flor da pele

Puro engano pensar que já vi de tudo. Mesmo aos 81, surpreendo-me todos os dias com as mais inesperadas surpresas, ao ponto de não distinguir aonde começa a realidade e termina a mentira, ou vice-versa. A grande pergunta que me faço a esta altura é se valeu a pena tanto trabalho, desde os doze anos, para desfrutar uma aposentadoria em que é preciso continuar trabalhando para sobreviver com um mínimo de dignidade, sem ceder à corrupção ou deixar-se levar pela hipocrisia. É verdade que desde menino convivi com o Carnaval de fato, desfilando pelas ruas de Olinda e Recife sem jamais pensar que algum deveria prover o futuro. Não. Não provi. Mas o tempo encarregou-se de cobrir os dias e as noites de alguma certeza, ao ponto de ser convidado para assumir novo emprego sempre que alguma ignomínia me expulsava ou me obrigava a sair de outro. Neste ponto fui feliz. Durante toda a vida fiquei poucos dias desempregado, me aposentei com tempo além do necessário e continuei no batente por mais uns vinte anos, até ser demitido injustamente por justa causa e ganhar uma bolada, que caiu em Precatório. Honrei todos os compromissos, a começar pelo fiado que eventualmente garantia o jabá na mesa e o peru no Natal em dias magros. Se algumas vezes caí na inadimplência não foi por desejo próprio, tampouco para vingar-me do capitalismo selvagem, como fazia um amigo que ficava alguns anos sem pagar aluguel, até receber intimação de despejo. Para ele, alugar casa era exploração do homem pelo homem. Queria punir o explorador. Não estou aqui por arrogância, nem para contar misérias da vida. Estou aqui para pedir perdão pela timidez com que enfrentei meus demônios e garanti minha sobrevivência. Se pudesse começar tudo de novo, como perguntam em concursos de misse, voltaria à praia, olharia o mar e o céu e esperaria a lua cheia, antes de pensar em algo mais. Não estou pensando nisso, naquilo, nem naquilo outro. Estou pensando em resgatar os bons fluídos e reaproveitar o tempo perdido. Ah se pudesse!

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