TUDO JUNTO E MISTURADO

Aqui na casa de minha irmã, onde passo dias agradáveis em férias intermináveis, a leitura de Hatoum é interrompida constantemente pela eterna discussão em torno dos cuidados com dois enormes cachorros, que suprem eventuais carências de todos da família. Qualquer leve ferimento, alteração respiratória, inflamação banal, e até o piscar de pernilongo, que aqui se chama muriçoca, é motivo para ligar ao veterinário, que vem correndo atender os bichinhos a qualquer preço. Não adianta reclamar, sob pena de ouvir aquele discurso óbvio de que é melhor conversar com os animais do que com certa gente. Já cheguei a dizer, em tom de brincadeira, que na outra geração quero ser um gato, tal a preocupação da família com os animais domésticos, já que os filhos, sobrinhos e demais parentes vão muito bem obrigado. Cada um tem seu carro e a maioria tem curso superior; um é campeão nacional de xadrez, outro de jogo de botão e tenho até sobrinhos que fazem pós-graduação no Canadá. Logo, por que não tratar os animais com carinho e levá-los aos shoppings, à Jaqueira ou ao banho de mar? Além de ruidosos latidos mediante os gritos de vendedores ambulantes, que por aqui proliferam, a dona da casa não para de dar instruções sobre limpeza, que inclui, naturalmente, varrer sob meus pés. A meu ver, o chão está limpíssimo, mas pode ter pêlos invisíveis de cães e gatos. Quando tudo está aparentemente sob controle, a panela de pressão apita. É hora de desligar o fogo e partir para as providências do almoço, que por essas bandas não é como em Paris, onde um pãozinho, um copo de vinho e uma maçã resolvem tudo. Aqui não pode faltar feijão, arroz, macarrão, carne, legumes, verduras e farinha de mandioca. Mais uma boa pimenta do reino. Tudo junto e misturado. Afora frutas, que aqui se colhe no quintal. É covardia alegar hipertensão, diabete, gota, qualquer doença que limite nossa gula. Felizmente, o Recife é hoje um dos mais avançados polos médicos do país. Em caso de necessidade, há bons médicos de todas as especialidades. Certa vez, ao voltar a Caruaru, depois de morar alguns anos em São Paulo, um amigo estranhou meu pedido na Churrascaria Guanabara: salada completa. Ele me olhou com ar de espanto e lascou: que é isso? Virou bicha?

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