SÓ O HUMOR VENCE A DOR

Aos vinte e poucos anos experimentei o desconforto de acordar numa maca de pronto socorro, após desastre automobilístico. As dores vieram em seguida, em pequenas escoriações.  Antes disso só conhecia a dor que levara meu dentista a extrair cada dente que apresentasse alguma cárie. Arrancou cinco. Até hoje amaldiçoo meu algoz, e só não o nomeio porque ele ainda atua, infelizmente. Naquela época, década de 50, ainda não havia Procon. Mesmo assim eu não podia reclamar porque era de graça. Ele era candidato a vereador em Caruaru e eu produzia para ele títulos de eleitor num cartório. Consolo: o dentista nunca foi eleito vereador.
Depois da dor de dente conheci dor ciática, dor de barriga, dor de veado e a dor quando meu pai se valia de um cinto, chinelo ou palmatória para punir desatinos de criança. Dor menor ocorria quando a menina dos meus sonhos, sem querer dizer um não objetivo, dizia talvez. Isso não é dor, convenhamos, é frescura de quem lia José de Alencar e Castro Alves.
Fiquei triste em 1964, e ainda hoje dói, quando meus sonhos de juventude desvaneceram ao caírem um a um todos os meus ídolos: Miguel Arraes, Pelópidas Silveira, Paulo Cavalcanti, Hiram Pereira, David Capistrano, Francisco Julião... Experimentei outro tipo de dor: ficar entre quatro paredes, num recinto de quatro metros quadrados, por 30 dias, até ser levado à presença de um delegado que me liberou com ordens de não sair do Recife, pois poderia ser convocado novamente caso encontrassem provas de minha periculosidade.  Não encontraram. Quando me procuraram, eu já estava em São Paulo pedindo emprego.  Sabia que dali prá frente não teria mais emprego em Pernambuco.  Virei paulistano.
Aos 80 senti um novo tipo de dor, que conhecia apenas pelas notícias. Ninguém desconhece as atrocidades cometidas na ditadura Vargas, quando arrancavam unhas de comunistas para forçar delações. Em Pernambuco ninguém desconhece a fama de torturador do delegado Wandenkolk Wanderley.
Pois bem. Agora sei como sei o tamanho exato da dor de arrancar uma unha, literalmente, após um processo de infecção. A cirurgiã bem que tentou anestesia local, mas não funcionou.
Não desconheço a dor de corno – não que minha ex-esposa, de quem sou separado judicialmente, tenha algum dia saído com outro, enquanto éramos casados. Era "sofrimento por desilusão amorosa", como diz Santuzza em seu livro "Dito e feito". Sinto-me traído pela minha boa fé, pela minha ingenuidade, pela minha dedicação a uma causa perdida, por acreditar em tudo e em todos, ou em última análise, por mim mesmo. Só me resta tratar a dor com o recurso do humor. Provavelmente outros já tentaram. Vai dar certo?


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