ROBERTO CIVITA


                                      QUANDO TRABALHAR NA ABRIL ERA A GLÓRIA




É preciso muita disposição, estar em férias, aposentado ou ter interesse específico para digerir o calhamaço de 534 páginas que o jornalista Carlos Maranhão escreveu sobre “Roberto Civita, O dono da banca”, para a Companhia das Letras. Reúno as duas últimas exigências, pelo menos: há algum tempo olho pra lua inutilmente e participei intensamente da vida da Editora Abril e dos companheiros mencionados ao longo do exaustivo trabalho de pesquisa, com os quais convivi, almocei, beberiquei e muito aprendi, com admiração e respeito. Em compensação, fiz parte da fornada de onde saíram centenas de profissionais com emprego garantido só por ter trabalhado na Marginal do Tietê.
Entre as lembranças que guardei de Roberto Civita, todas absolutamente simpáticas, a mais recorrente é a reunião que ele promoveu com cerca de 50 jornalistas da revista Intervalo, da qual eu era copidesque, para anunciar seu fechamento. Explicou que embora a revista fosse um sucesso nas bancas, sofria com a falta de publicidade, ou seja, dava prejuízo. Daí a decisão de fechar sua redação. Mas ninguém precisaria se preocupar. Salários e plano de saúde seriam mantidos por 90 dias, tempo em que todos poderiam buscar recolocação na própria empresa ou onde lhes aprouvesse. Em menos de uma fui convidado para fazer um “house organ” do departamento de pessoal, mas já tinha emprego garantido no jornal O Estado de São Paulo, por indicação de Juarez Bahia, conceituado guru das redações.
Apesar de desligado, continuei ligado à empresa por um vínculo indireto, pois minha esposa era revisora da Veja - por seus próprios méritos, diga-se de passagem. Note-se que naquela época, antes da informática, as longas matérias eram copidescadas pelos editores e redatilografadas pelas revisoras, que as livrava dos erros de Português. Só então desciam para a gráfica. Assim, do começo ao fim da revista acompanhei cada detalhe da redação. Era íntimo de alguns de seus integrantes, principalmente Milton Coelho da Graça e Eurico Andrade, com os quais trabalhara na Última Hora – Nordeste.
O relacionamento de Roberto Civita com os jornalistas tidos como comunistas é esclarecido em várias oportunidades, especialmente nos capítulos que tratam da criação, sucesso e decadência de Realidade. Já o relacionamento com o Governo encontra-se minuciado quando o assunto é Veja. Em várias ocasiões o editor se posiciona em defesa dos comunistas, mesmo sob evidentes riscos. Fez mais ou menos como Roberto Marinho no caso de O Globo, que costumava dizer algo como “em meus comunistas não se mexe”. O trabalho deles interessava pela ousadia, coragem e também pela qualidade.
O grande mérito do livro está em resgatar cada um dos episódios que marcaram a tumultuada trajetória da Abril. O autor não se constrange em revelar que submeteu seus textos a vários interlocutores, depoentes, personagens, etc., sempre com o objetivo evitar incorreções e assegurar a veracidade da versão oferecida. Enquanto Victor Civita se destaca como extraordinário investidor, seu filho Roberto surge como o maior visionário da imprensa brasileira e ousado editor. Para jornalistas, trabalhar na Abril era a glória. Para eles, a leitura deste livro é indispensável. Para o público em geral, também.


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