BIOGRAFIA DE UM MESTRE

     Ninguém melhor do que Homero Fonseca poderia relembrar com precisão, elegância e sobriedade a vida de Carlos Garcia, um dos volumes da Coleção Memória, da Cia. Editora de Pernambuco. O mesmo se pode dizer da Superintendência de Produção Editorial da CEPE, sob os cuidados de Luiz Arrais, que caprichou na edição, com ajuda óbvia de toda uma equipe. O que se lê e o que se vê é um opúsculo caprichado em todos os sentidos, valorizado pelo tipo de papel em que foi produzido (couché) e por ilustrações fotográficas adequadas a um texto objetivo, conforme discurso do biografado.
Tendo convivido com o biografado e testemunhado grande parte de sua brilhante trajetória, a leitura deste livro quase me leva às lágrimas. Trabalhei com Garcia duas vezes: na Última Hora-Nordeste e quando tentei voltar a morar em Pernambuco, em 1975. Antes disso, fui da redação de O Estado de S. Paulo por alguns anos, na década de 70. Posso, portanto, corroborar tudo o que Homero Fonseca escreve a seu respeito, bem como os encômios a ele destinados.
O leitor notará que não há em toda sua história nenhum fato desabonador. Em sua longa passagem pelas diversas redações, lidando com os mais diferentes seres humanos, Garcia consegue manter boas relações com todos - direita. esquerda e centro, como mostra o trabalho de Homero. Tanto isso é verdade que em meio ao tumulto de 64, quando a UH foi invadida e alguns de seus redatores presos, Garcia escapou ileso. Só muito depois foi preso por causa de uma notícia.  
Naquela fase difícil em que todo mundo era trancafiado e às vezes sofriam torturas ou desapareciam, ele teve conhecimento de que eu estava sendo procurado. Sabia de fonte segura que se eu fosse para algum quartel poderia passar maus momentos. Ele e o gerente da UH, Jungmann, levaram-me num Fusca para Caruaru, onde moravam meus pais. Sabiam o risco, mas o enfrentaram com rara coragem, e quando tive oportunidade de agradecer por isso ele mais uma vez foi gentil e corajoso: faria tudo de novo, disse. E ele não era e nunca foi comunista.
Como bem explica Homero Fonseca, ele transitava com extrema facilidade por todas as tendências, tratando a todos com fidalguia e respeito.
A CEPE está de parabéns pelo resgate dessa linda história. 

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