PELA SOBREVIVÊNCIA, OBRIGADO!


Faço tudo ao contrário. Não tenho projetos, não vou atrás de nada e há muito desisti de sonhar com meus botões. Claro que já fiz tudo isso. Cheguei a usar óculos tipo fundo de garrafa, sem grau algum, só para impressionar. Quem me visse deveria pensar que eu era um intelectual, diferente dos mortais, e quase era, pois aos treze anos lia dois jornais por dia na tentativa de descobrir a diferença entre eles.
Ontem fui a uma praça que se chama Por do Sol, obviamente para ver o sol desaparecer no horizonte. Fiz algumas fotos como todo mundo. E me deixei levar pelo silêncio, perturbado apenas pelos aviões que passavam em direção ao aeroporto, um atrás do outro, quase um desfile.
Os casais ignoravam a paisagem, preferindo olho no olho, boca na boca, perna com perna, só de olhar quase chorei de inveja. E me lembrava de quê? Da praça no Interior, da praia no litoral, dos bailes no clube, dos tempos que não voltam mais. Já não faço o contrário, sou igual a todo mundo.
Por cinco vezes me apagaram tão completamente que não pensei que voltaria a ver o por do sol, tampouco o sol nascer. Na última vez, indignado, tirei os tubos, inconformado com o sofrimento que me impuseram para prolongar um pouco a vida. Debati-me por alguns momentos, até ser contido com remédios. Conseguiram acalmar a mais calma criatura do mundo.
Pergunto a mim mesmo coisas inconfessáveis, inclusive o que vale a pena. Sem conciliar o sono, apelo para o rádio e além de música de qualquer qualidade fico ouvindo o diálogo entre locutores e seus ouvintes, que repetem mensagens de autoajuda. Haja mensagens. Nas despedidas, o que mais ouço é “fica com Deus”.
Para enganar o tempo, vejo filmes em torno do passado, cenas da juventude, da maturidade ou de alguns dias atrás. Sonho voando de braços abertos, entre prédios, como o Homem Aranha. Na verdade, um filme passa na minha cabeça todas as noites, ao sair do sono profundo.  São segundos que parecem uma eternidade.
Talvez seja melhor saudar os primeiros raios da manhã. Repetir chavões tipo ainda há esperança, é preciso acreditar em alguma coisa, não custa sonhar. Talvez seja melhor agradecer. Pela sobrevivência, obrigado.







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