POESIA EM TUDO

Foto: Sergio Daniel/Instagram

Quando jovem, não podia ver uma mulher bonita e produzia um poema. Achava a rima desnecessária e acreditava numa sequência de frases harmoniosas, com sonoridade agradável e final de acordo com o enunciado. Um colo era uma paisagem, uns seios eram uma montanha intransponível e o olhar era um mistério insondável. Cheguei a jogar xadrez durante um ano inteiro só para desfrutar os incríveis horizontes de uma dama – até que ela, percebendo os meus desígnios maledicentes, confessou que não tinha o menor interesse por meus impulsos.  Deu-me um fora sonoro e nunca mais se falou disso.  
No centenário de Caruaru mudei o mote. Substituí as lindas meninas pela cidade de minha iniciação nas coisas da vida e do amor. Fiz uma espécie de ode, que Mauro Mota publicou no Diário de Pernambuco a meu pedido e nunca mais resgatei, por não lembrar a data em que foi estampada. Em outras oportunidades divulguei versos que não me trouxeram a mais discreta fama, salvo a constatação de que eu não era um perigoso subversivo, mas um poeta a caminho de uma revolução tão inofensiva quanto a mais suave melodia.
Mais tarde cheguei a reunir num livro toda minha produção poética e a intitulei de “O Último Romântico”. Ainda não havia a canção homônima de Lulu Santos. Na contra-capa justifiquei a ousadia com a ideia de que já fizera coisas piores, muito piores. Já dormira ao relento à beira do Capibaribe e chorara em serenatas cantando Nelson Gonçalves e Sílvio Caldas.
O livro se salvava pela capa do artista gráfico Ionaldo Cavalcanti, de saudosa memória.  Na noite de lançamento tive a agradável surpresa de conceder autógrafo a uma das musas que povoaram minha imaginação na juventude. Não a via há muitos anos, mas a reconheci tão logo ela despontou no salão. Meu coração pulou de alegria. 
Ao constatar que não figuro em nenhuma antologia, consolo-me com a ideia de que a poesia está no entorno. Está não apenas no colo das mulheres, mas também no balanço das jangadas, no vai-e-vem das marés, no vento que alivia esse calor tropical e até no frevo que nos embala.  Os descaminhos, os desgostos, a frieza dos indiferentes, a desordem das ruas e o insuportável som dos que confundem música com barulho ensurdecedor – pouco ou nada importam. Resta-nos varrer a alma e usufruir o possível. A poesia está até no quintal, com suas mangas, pitangas e roupas coloridas no varal.


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