MEUS DESAPARECIDOS


Pelo menos 150 pessoas desaparecem misteriosamente no Brasil todos os dias. Não há estatísticas confiáveis, mas o número de desaparecidos é superior a 50 mil. Eles somem das casas ou das ruas, sem que ninguém jamais encontre vestígios de sua presença na terra.
Isso me remete a recordações nada agradáveis. Era ainda rapazote na década de 1950, na minha então pequenina Gravatá, quando pela primeira vez ouvi falar desse assunto. Um vizinho, Inaldo Carvalho - filho de Miguel Aragão, o mais antigo e conhecido papa-defuntos da cidade - empreendera viagem ao Rio de Janeiro em busca de sucesso e depois das primeiras notícias nunca mais foi localizado. Seus irmãos Ivaldo, Ismael e Irene, meus colegas de ginásio, comentavam aflitos o acontecimento e todas as vezes que os visito anualmente cobro inutilmente alguma explicação. E nada. Nenhuma até hoje.
Quando a Comissão da Verdade anunciou o desaparecimento e a morte de 434 pessoas em condições misteriosas, no período do golpe militar, meu primeiro impulso foi ler os nomes, um a um, para saber se entre eles haveria algum amigo. Constatei com tristeza que pelo menos dois eu conheci pessoalmente e mantive com eles certa convivência. Hiram de Lima Pereira era secretário de Administração da Prefeitura do Recife, quando Miguel Arraes era prefeito; Davi Capistrano era amigo dele. Ambos eram dirigentes do Partido Comunista Brasileiro. Nunca ouvi de nenhum deles qualquer referência à luta armada, em suas pregações aliciadoras. A orientação do Partidão, como era conhecido o PCB, era no sentido de fazer a revolução com argumentos, programas, divulgação, aí entravam alguns jornalistas. 
Outro amigo comum, o escritor Paulo Cavalcanti, só não está na lista dos mortos e desaparecidos por um milagre. Escapou de sucessivas prisões sem que ninguém jamais ousasse lhe tocar um dedo, apesar de sua inabalável posição, registrada em seus livros e reiterada em todos os depoimentos prestados no DOPS ou no Exército. Uma explicação estaria em suas origens, descendente que era de família tradicional. Quem não conhece a expressão “em Pernambuco quem não é Cavalcanti é cavalgado”? Outra explicação, mais provável, seria a capacidade de dialogar, desenvolvida durante sua longa e profícua atuação, como advogado e promotor. Ele sabia ser incisivo, tocar no ponto, sem ofender os interlocutores.
Ainda a propósito do assunto, lembro-me do enterro de meu irmão, o advogado Vital Maria Tiné, em 1983 no Rio de Janeiro: a esposa e eu à beira do túmulo do Cemitério do Caju, enfrentando um “desaparecimento” forçado pela impossibilidade prática de convocar parentes e amigos. Não se tratava de nenhum fato político, mas de inesperado infarto do miocárdio aos 45 anos.
De amigos de infância e líderes políticos, os desaparecidos só vêm à lembrança quando a mídia traz à tona as circunstâncias de suas mortes ou a incompreensão de seus desígnios. Como quem perde um parente próximo, resta-nos questionar nossa inútil presença nesse mundo, quando nenhuma Comissão detectará nosso sumiço. Além dos 434 desaparecidos da Comissão da Verdade há os que somem sem que tenham aparecido, ou morrem sem ter nascido.

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