O CÉU DE LUIZ GONZAGA E AUDÁLIO DANTAS


Sempre que arrisco tecer comentários sobre um novo livro lembro de Paulo Francis, cuja carreira foi impiedosamente escrachada por Fernando Jorge, no livro "Vida e Obra do Plagiário Paulo Francis", da Geração Editorial. O comentarista da TV Globo tecia os maiores elogios ou os piores xingamentos a partir da leitura de orelhas. Era óbvio que um livro lançado em noite de autógrafos festiva não tinha sido lido, salvo a hipótese de ter sido enviado antes para o comentarista. Posso supor que o crítico "comia pelas beiradas", expressão que a gente usa quando quer dizer que não houve uma leitura completa da obra comentada. Antes de comentar esse livro, eu li.
"O Céu de Luiz" é um livro de arte lançado pelas edições Sesc após aula-espetáculo de José Miguel Wisnik no auditório do SESC Pompéia, em São Paulo. Basicamente, o livro contém biografia de Luiz Gonzaga por Audálio Dantas e fotografias em branco e preto de Tiago Santana. Audálio dispensa qualquer apresentação. Vem de O Cruzeiro, foi presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, Deputado Federal e por aí afora. Um dos símbolos da luta contra a ditadura militar, lançou recentemente a biografia de Wladimir Herzog, jornalista morto no DOI-Codi de São Paulo em circunstância já conhecidas. Tiago Santana é fotógrafo premiado nacional e internacionalmente, com trabalhos expostos em importantes revistas e livros do mundo inteiro, inclusive um estudo sobre o Chão de Graciliano, outro trabalho desenvolvido também em companhia de Audálio.
Para fazer o texto, Audálio e Tiago percorreram parte do sertão de Pernambuco e Ceará, revivendo histórias de vida de Luiz "Lua" Gonzaga e a saga das famíias Alencar e Sampaio, de Exu. Além de entrevistar sobreviventes dessa saga, Audálio recorreu a trabalhos já publicados, como o "Dicionário Gonzagueano, de A a Z", publicado por Assis Ângelo em 2006.
Como alagoano, Audálio conhece a paisagem, o homem e as circunstâncias que o cercam nos sertões nordestinos. Conterrâneo de Graciliano Ramos, sobre quem já dissertou tantas vezes, mesmo assim fez questão de ir a fundo, de fazenda em fazenda nas encostas da Serra do Arararipe, para reviver com fidelidade os caminhos percorridos pelo maior cancioneiro daquelas bandas.
As fotografias transformam a paisagem árida em imagens cinematográficas. Deixam o leitor se levar por um realismo ao mesmo tempo inclemente e belo. O que é seco e triste de repente vira beleza.
Com apresentação de Danilo Santos de Miranda, o livro em si é  um objeto de arte, para quem aprecia objetos de bom gosto.

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