QUANDO TUDO FICA DIFÍCIL

Uma das constatações da senilitude é que os dias, as noites, os fatos e os feitos se repetem. Tudo fica absolutamente sem graça, à medida que não constituem nenhuma novidade, nem mesmo quando de natureza agradável. Chega-se a um ponto em que tomar banho, escovar os dentes, comer, dirigir, ver televisão, andar, correr - nada faz sentido. Tudo se transforma em gestos automáticos, de utilidade questionável - e aí está o perigo. Pra que ir ao cinema, pra que fazer dieta, pra que tomar remédio, se nada mais faz sentido,
Apesar disso, ou por causa disso, tenho ido com frequência aos consultórios médicos em busca de soluções que possam minimizar os efeitos da decrepitude. Todos sabem da impossibilidade de deter esses efeitos, que avançam inevitavelmente a cada minuto. Mesmo assim, todos vivem tentando. Alguns recorrem à homeopatia, fitoterapia, acupuntura e demais alternativas. Para muitos - não para mim - vale tudo na busca desesperada pelo bem-estar, até ciências ocultas.
Já tentei mascarar minha discreta hipocondria com a clássica busca de uma segunda opinião. Descobri então que ao perceberem nossa intenção os médicos se esmeram em afirmar que não devemos nos preocupar com isso. Jogam a culpa no psicológico.
Outra ideia que sempre me preocupou foi estabelecer um elo com corrente ideológica, partido político, religião, algo que nos desse segurança. Criado no seio da igreja católica, aderi com facilidade às pregações de D. Hélder Câmara e virei simpatizante do socialismo, que me parecia uma versão leiga da igualdade e fraternidade pregados pela igreja. Mesmo Isolado qual bandido numa prisão por causa dessa mera tendência (em 1964, naturalmente), não reneguei minha utopia mas passei a escondê-la até de mim mesmo, quem sabe por medo de minha própria sombra. Afinal, escapara ileso à truculência de certos agentes, quem sabe devido à timidez com que manifestava minhas nobres intenções.
Assim, a cada consulta pergunto onde foi que errei. É claro que o médico não arrisca nenhum palpite, mas prescreve fisioterapia com entusiasmo, alegando que os exercícios , embora repetivos, são eficazes.
E lá vou eu exercitar uma musculatura em frangalhos. O pelotão de jovens fisioterapeutas se reveza no atendimento, incute otimismo, promove esperança, vende ilusões, induzindo o paciente a acreditar que nem tudo está perdido. Sem alternativa, a gente acredita.







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