PRESENÇA DE FREI DAMIÃO


Ainda menino, vi e ouvi várias vezes as pregações de Frei Damião, no Agreste pernambucano. Multidões o acompanhavam em procissões ou lotavam as igrejas de Sant'Ana, em Gravatá, ou de São José, em Chã Grande. Na primeira, era o Cônego José Elias de Almeida que o apresentava; na segunda, era o Padre João Inácio que convocava o povo da cidade para os dias de penitência e orações. Convivi com ambos como acólito, ajudando missas e me incumbindo das providências que antecedem e sucedem os ofícios religiosos.
De tempos em tempos havia as chamadas Santas Missões. Hoje existem missões de vários tipos - carismáticas, populares. evangélicas, etc. - mas no meu tempo de acólito havia só uma,  com o objetivo de congregar o povo católico, chamando os fiés às suas responsabilidades, lembrando-lhes a necessidade de cumprir os mandamentos. Sua primeira missa foi em Riacho do Mel, distrito de Gravatá - PE. O piedoso frei corria todo o Nordeste mas voltava sempre àquela terra que acolhia tuberculosos por causa de seu clima seco e suave.
Em meados do Século XX não havia procissão que dispensasse a presença de Frei Damião Bozzano. Diplomado em Teologia pela Universidade Gregoriana em Roma, o frade capuchinho ordenou-se sacerdote em 1923 e veio para o Brasil no início da década de 1930.
Nas Santas Missões as vítimas preferidas de Frei Damião eram os amancebados. Seus sermões constituíam verdadeiros libelos contra os casais que moravam juntos sem serem casados. Daí os mutirões de casamentos, reunindo dezenas de casais em cerimônia coletiva. Em Chã Grande, o casal de comerciantes que mais colaborava financeiramente com as missões era amancebado. Frei Damião fazia um sermão raivoso, condenando ao inferno os  que fornicavam sem a bênção de Deus. Na primeira fila, o casal se entreolhava, torcendo para que o religioso jamais viesse a descobrir tal segredo. Até que, entre uma missão e outra, o casal se uniu no religioso sem alarde, para evitar os inevitáveis e maliciosos comentários. Desse modo, livrar-se-ia da condenação ao fogo do inferno, preconizada pelo frade.
Meu pai era franciscano. Estudara no seminário dessa ordem em Pesqueira e só não se ordenou frade sabe lá porquê. Tinha frei Damião na maior conta, recebendo-o e ajudando-o em todas as circunstâncias. Com certeza ele iria gostar de saber que o Papa é do ramo. Duas de suas filhas estavam na multidão que o saudou em Aparecida do Norte, em julho de 2013.
 

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