A FARMÁCIA DO POVO


Depois de meia hora na fila preferencial, do alto dos meus 75,consegui entregar a receita para pegar os medicamentos gratuitos para hipertensão e diabetes, na farmácia do HCFMUSP. Várias páginas depois do Allegro, de Fernando Portela, que levei por precaução, para a hipótese de alguma demora, recebi medicamentos suficientes para um mês. Com um consolo: da próxima vez os receberei em casa, pagando apenas os serviços do motoqueiro.

A vantagem da longa espera é a convivência com pessoas das mais variadas origens e posições sociais. A gente fica assim com cara de quem não sabe nada , não está vendo nem entendendo nada, e vai colhendo pérolas da vida paulistana. Descobre que ali não tem apenas paulistano, tem de tudo, até cearense. Vem gente da Grande São Paulo, da Grande Belo Horizonte e até da Grande Caruaru. A pergunta óbvia tem resposta clara: venho aqui porque aqui funciona. A gente sofre, espera, mas recebe o que precisa.

A fila preferencial, para idosos, mulheres grávidas, deficientes físicos e quejandos é tão grande ou às vezes maior do que a normal. Todos aparentam cansaço, desespero, mágoa ou sei lá que sentimentos. Alguns expressam revolta, como o cidadão atrás de mim, que não deixou ninguém em paz durante os 30 minutos em que acompanhei silenciosamente sua ladainha.

Sabe o que é isso? É o PT infiltrado, ali entre os funcionários da farmácia. Só pode ser isso. Sou policial aposentado e no meu tempo o Hospital do Servidor Público funcionava. Agora sou obrigado a essa humilhação, com 83 anos nessa fila pra apanhar remédio pra minha mulher. Alguém pergunta o que ela tem, e o velhinho, saudável e falante como poucos jovens, explica que ela foi operada do coração no Incor, mas nunca mais foi a mesma. Já briguei com os médicos, tentando saber o que de fato ela tem, me explicaram, me explicaram, mas não entendi nada. Aquilo é uma máfia de branco.

Ao lado, um cadeirante entra na conversa para manifestar seu saudosismo, com frases tipo ah se voltasse a ditadura! Só Russomano pra resolver essa pouca vergonha! E não apareceu nenhum petista para defender Haddad, Lula ou Dilma. Pelo contrário, surgiu outro impaciente para afirmar que Maluf é o tal, e coisa e tal.

Lembrei-me do amigo jornalista que após passar quatro meses nos Estados Unidos voltou encantado com o estilo de vida americano. Postou no facebook que está gostando muito do Brasil porque tem sido muito bem atendido onde quer que vá. Foi trocar um objeto comprado no dia anterior e o vendedor me deu outro, sem qualquer discussão. Nota dez, escreveu ele.

Quis imitá-lo por causa do atendimento na Beneficência Portuguesa, onde fiz ressonância magnética de cabeça, cervical e tórax. Educação, rapidez e eficiência, foi o que encontrei no setor de convênios. Nenhuma queixa. Pudera! Os preços, ó!, lá em cima. Duro é fazer o que a farmácia do HC faz de segunda a sexta-feira, atendendo uma multidão por dia, gratuitamente. Quem quiser fazer pesquisa, tomar pulso da vida dos doentes, ler romance, fazer tricô ou mesmo falar da vida alheia, vá à verdadeira farmácia do povo, a farmácia do HC de São Paulo.

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