QUANDO ME CHAMAVAM ZÉ FLÁVIO



Algum dia me chamavam de Zé Flávio. Foi na década de 70, quando eu trabalhava na revista INTERVALO, da Editora Abril, e o jornalista Walter Negrão me convidou para substituí-lo no jornal A Gazeta, da Fundação Cásper Líbero. Minha função era escrever uma coluna, denominada TELEVISÃO, onde tecia comentários sobre programas de TV e, em seguida, colocava meia dúzia de pequenas notas sobre apresentadores, cantores ou quaisquer outros artistas que participavam dos diversos programas.

Walter Negrão era repórter e eu trabalhava na "cozinha" da revista, como redator, ao lado de Ágata Messina e Marilda Varejão, tendo como chefe de reportagem Giba Um, que por sua vez fazia uma coluna social na Folha da Tarde. Para qualquer um de nós era fácil fazer uma coluna desse tipo, pois passávamos 24 horas por dia lendo e pesquisando sobre televisão, bem como recebendo informações e caitituagens diversas. Éramoa assediados por gravadoras, empresários e pelos próprios artistas em busca de fama. Também viajávamos a serviço, acompanhando gravações de novelas, filmes e fazendo reportagens. Foi assim que conheci a fazenda de Eduardo Araújo em Joaíma (MG), o apartamento de Wanderley Cardoso em Copacabana, a casa de Roberto Carlos e Ronnie Von, no Morumby, nas quais almoçava algumas vezes em busca de notícias.

Era comum recebermos a visita de artistas novos, em fase de lançamento, conduzidos à redação pelos divulgadores das gravadoras. Eles levavam o disco, como brinde de divulgação, e o próprio artista, para ser entrevistado e  fotografado. Foi assim que conheci, por exemplo, uma certa Maria da Graça, mais tarde famosa como Gal Costa. Antes de entrar na redação, pela manhã, passei batido por um pequeno grupo que se encontrava no corredor, esperando o atendimento por alguém da redação. O chefe de reportagem, Giba Um, mandava um dos repórteres atender o representante da gravadora. E lá fui eu conversar com Maria da Graça, linda e simpática baianinha lançando seu primeiro compacto simples.

O dia-a-dia na revista INTERVALO me abastecia de informações suficientes para fazer não uma, mas várias colunas, se quisesse.

Foi nessa época também que me envolvi, sem querer-querendo, como diria o personagem de Chaves, num desagradável desentendimento. A revista, que circulava às quintas-feiras, decidira na véspera colocar Ronnie Von na capa, porque uma de suas composições, Meu Bem, chegara ao primeiro lugar. Precisava de um texto, mais ou menos 60 linhas, que me foi solicitado às pressas sob o argumento de que eu já o entrevistara várias vezes e até almoçara na casa dele, na época um apartamento na avenida Santo Amaro.

Perguntei a Giba Um se podia escrever o que eu quisesse, e ele prontamente concordou. Queria ver o circo pegar fogo, ou melhor, vender revista. Contei então o que ninguém ousaria falar à época. Ronnie Von mentia. Dizia-se solteiro, mas era casado com Aretusa.

No dia seguinte à publicação, Ronnie Von compareceu à diretoria da revista, acompanhado de um advogado e de seu empresário, para questionar minha petulância em tentar denegrir sua imagem. É bom lembrar que na época da Jovem Guarda os cantores faziam questão de esconder o estado civil. Acreditavam que a condição de solteiro era uma espécie de passaporte para o sucesso. Ronnie ameaçou me processar, mas eu não estava mentindo. Foi então dissuadido pelo diretor da revista, Odilo Licetti.

Na coluna do jornal A Gazeta eu tinha toda liberdade do mundo para opinar. Faço justiça aos diretores da emissora e da própria Fundação Cásper Líbero, que nunca me solicitaram para divulgar os programas da TV Gazeta ou seus artistas, apresentadores, locutores e demais persononalidades. Eu mesmo decidia o que prestigiar ou criticar, conforme meus própriois desígnios. Quarenta anos depois reconheço que exagerei algumas vezes, mas sabe como é. Todo mundo tem seu dia de dono do mundo. Eu tive alguns anos.


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