QUANDO OS DIAS SÃO IGUAIS

Houve uma época em que lamentava como todo mundo a chegada da segunda-feira. Tomava todas na sexta-feira, repetia a dose no sábado e curtia uma ressaca insuportável no domingo. Seguia aquela máxima de que a melhor cura para uma bebedeira é tomar outra, ou outras. E lá se iam os fins-de-semana, na maior alegria com os amigos ou em noitadas inesquecíveis com as almas caridosas que por alguma razão abraçavam minha causa.
Como todo desquitado que se preza superei os primeiros anos de separação judicial acobertando dissabores em grossos ou finos lençóis, conforme a região em que me encontrava. Em São Paulo, tinha que recorrer aos cobertores de lã, que Nelson Gonçalves chamava de ededron; no Nordeste não era preciso quase nada.
Não resisto à tentação de lembrar episódios dessa época feliz ou infeliz, conforme a situação, independente da região em que estava. Como a ocasião em que após seis meses de um louco amor fui desalojado do antigo ninho oficial por aquela que ainda se julgava no direito de considerá-lo propriedade dela. Não se tratava de ciúme, creio, mas de um ódio enrustido que aflorava cada vez que, sem o pretender, eu o despertava.
Uma vez livre de quaisquer compromissos, tinha a sexta-feira e o sábado como os dias mais propícios à devassidão insaciável. Posso garantir, porém, que nunca fui além dos inocentes goles de cerveja ou uísque. O álcool, essa desgraça que acompanha a humanidade em qualquer parte do mundo, já foi um dia meu companheiro inseparável, felizmente apenas nos fins-de-semana. Fazia parte dos que consideravam frios os abstêmios. Entre os bêbados era comum dizer-se deles que eram indivíduos insuportáveis. Não se pode confiar em quem não bebe, segredavam, com alguma dose de autoconforto.
O primeiro dia da semana era bom para ir ao teatro de graça. Bastava descobrir onde haveria uma pré-estreia, que normalmente se destinava aos diretores e atores, cuja folga ocorre exatamente nesse dia. Era quando os colegas de outros espetáculos podiam comparecer. E lá ia o pretenso crítico de teatro, que também já se travestiu de crítico de literatura e de música, sempre na tentativa de imiscuir-se nessas artes e tornar-se um artista.
Para um happy hour não era necessário haver um dia, bastava um pretexto. Qualquer dia da semana era bom também para lançamento de disco, noite de autógrafo, avant première, inauguração de restaurante ou coquetel de exposição.
A vontade de comparecer a tais eventos começa a variar conforme as (in) disposições. Já não são os dias da semana que influenciam na decisão de prestigiá-los, mas os fatores psicológicos e fisiológicos. Depois de certa idade não adianta rebater a ressaca com novos goles disso ou daquilo. É necessário mais de um dia para que tudo volte ao normal.
Assim, por um lado temos a grande vantagem de não precisar escolher um dia da semana como o melhor para sair, jantar fora ou para uma pequena viagem. Podemos fazer isso qualquer dia, qualquer hora, em qualquer lugar, quando alcançamos certo grau de independência social e financeira. Por outro lado, os dias e as noites são iguais. Não há mais diferença entre a claridade do sol e o breu da noite insone. As cores se misturam e se transformam em outra. A vida não.

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