CARTAS QUE MINHA MÃE NÃO LEU

Escolhi você como minha interlocutora no primeiro dia do ano de 2011 apenas por acaso, talvez por desespero, por não ter com quem falar numa madrugada que de repente passou de barulhenta a silenciosa e fria.

É o dia da posse da primeira presidente do Brasil, Dilma Rousseff, e você perguntará o que tenho com isso. Razoável sua dúvida, levando em conta que não costumamos discutir política, aliás não costumamos discutir nada, nem escola de criança, educação de criança, brincadeira de criança.

Talvez esteja aí a primeira pista para a resposta. Quem governará este país nos próximos anos senão as crianças? O futuro é deles.

Não sou especialista em educação, aliás não sou especialista em coisa alguma.

Parece óbvio que se não educarmos as pessoas desde pequenininhas teremos de continuar suportando acidentes desnecessários, crimes horrendos, vizinhos incômodos, motoristas trapalhões e as lamentáveis explorações que faz o Brasil conhecido lá fora como o paraíso da exploração sexual e dos políticos o símbolo da corrupção.

Quando ocorre um feriadão como esse, imagino o custo de tudo isso e o desperdício de tempo e de dinheiro. Nada contra aproveitar os dias de folga para ir à praia, fazer churrascos, tomar umas e outras e aproveitar. É o melhor da vida. Talvez não concorde com os exageros, mas para discordar deveria ser o primeiro a dar o exemplo. Em minha juventude e mesmo mais tarde fiz tudo isso e mais alguma coisa. Não sou nenhum exemplo de conduta moral ilibada. Talvez por isso, exatamente por conhecer tudo isso por dentro, proponho-me a tocar no assunto sem nenhum constrangimento, só para mexer com minha própria ignomínia.

Há uma longa discussão sobre a necessidade de dotar a educação de instrumentos capazes de formar as pessoas, não apenas tecnicamente, também seu caráter. Antes que essa conversa tome o rumo da moralidade, despeço-me pedindo desculpas pela abordagem quem sabe imprópria para o momento, se é que existe momento impróprio para alguma coisa.

Impróprio, para mim, é o desamor que campeia por aí e por aqui.

Manchete de O Estado de S. Paulo hoje, 1/01: Começa GovernoDilma.



SEGUNDA



Logo de manhã - cantava Zizi Possi, linda canção. Logo de manhã atrevo-me a escrever uma segunda carta, sem segundas intenções. Dá para perceber que não sou nenhum especialista em educação infantil, apenas um palpiteiro. Mesmo porque sempre fechei a cara para moralismos. Os únicos conceitos que gostava de curtir eram frases literárias, frases feitas.

Fiz certa vez uma sugestão para o caso de uma menina de sete anos extremamente exigente com roupas. Só queria vestir determinado vestido, ao ponto de esperar que ele fosse lavado para vestir novamente. Em seu guarda-roupa, que não contei mas imagno, havia mais de 40 tipos de vestido, todos lindos e alguns adquiridos nos Estados Unidos, ou seja, coisa da mais alta qualidade. Ela insistia em vestir aquele todo santo dia.

Foi aí que tive uma ideia. Por que não comprar ou mandar fazer mais dois vestidos exatamente iguais? Seria a solução. O pai da menina retrucou. Segundo ele, estaríamos criando facilidades para um capricho infantil, ou seja, deseducando. Como você pode ver, não devo entender de educação infantil.

Se há alguma coisa a lamentar nesse primeiro dia do ano é não ter conhecido você antes. Como pude me privar de tal doçura? Não quero dizer com isso que não conheci outras pessoas amáveis, sensíveis, femininas como você. Conheci. Uma a uma fugiram-me às mãos. Não foram muitas, bom que se diga, conto-as nos dedos. Para meu azar, nenhuma quis atrelar-ME a meus desígnios. Nenhuma.

Esse é um mistério que vem comigo desde muito, fazer o quê? Por essa razão, quem sabe, faço parte do time dos mal-amados, separados judicialmente. Cheguei a concordar com um casamento de aparências, em nome dos filhos, mas não obtive a necessária concordância. Mulher, como se sabe, é mais realista e nem gosta de discutir esse assunto. Razões de lá e de cá não levam a nada e como se costuma dizer, roupa suja se lava em casa.

No primeiro dia do ano de 2011, um terço de São Paulo está no campo ou nas praias. Preferi ficar aqui com meus botões, pois já não acho graça nesse enfrentamento automobilístico em nome de um lazer sacrificado. Depois, me arrependo. A praia ou seja lá qual for o destino é sempre melhor do que ficar parado, lendo ou assistindo televisão. Somos obrigados a curtir a alegria dos outros, ouvir os fogos no Brasil e no mundo, aguentar a saída e chegada de vizinhos eufóricos e barulhentos e retribuir os falsos votos de Feliz Natal e Próximo Ano Novo.

Manchete de O Estado de S. Paulo hoje, 2/02: Dilma exalta Lula e se diz "presidente de todos".

TERCEIRA

Recordo-me de fatos que não deixaram saudades. Enquanto assistia às cerimônias de posse da nova presidente da República, Dilma Rousseff, veio a lembrança de minha prisão em 1964 e os motivos que a originaram. A foto está aí, extraída dos arquivos do Dops de Pernambuco e que me foram úteis ao recorrer os benefícios da Lei de Anistia. Uma história, já contada em várias crônicas, que tentarei resumir em novos relatos.

Quanto à posse de Dilma, não há quem não se emocione com as cerimônias que acabamos de assistir pela televisão, mostrando a despedida de Luís Inácio Lula da Silva, após oito anos na presidência da República, saindo com 87% de popularidade.

O povo comemorando com gritos, palmas e muito choro de alegria. Em certos momentos também não contive as lágrimas.

Ocorre que por acaso estive entre os que lutaram para transformar este País numa sociedade justa. Fui pau-de-arara como Lula, embora por razões diferentes. Lula veio por causa da miséria, todo mundo sabe sua história. Eu vim depois de uma prisão de 30 dias pelo fato de defender o Governo popular de Miguel Arraes de Alencar como governador de Pernambuco e Pelópidas Silveira como prefeito do Recife. Lula morava em Caetés, então distrito de Garanhuns, eu morava em Boa Viagem, aprazível praia do Recife. Outra razão de minha prisão foi o fato de ser sócio da Sociedade Cultural Pernambucana Brasil - União Soviética, entidade civil que reunia jovens advogados, médicos, jornalistas, etc., para ouvir palestras e ver filmes de caráter cultural sobre a URSS. Queriam saber também de um suposto curso de guerrilha que eu teria feito em Cuba, no verão de 1963. Na verdade, passei 30 dias em Cuba, com uma delegação de 120 brasileiros e argentinos visitando o país e conhecendo in loco a revolução cubana. Fizemos um tour de ponta a ponta da ilha - de Pinar Del Rio a Guantanamo -, sendo recebidos com palestras, jantares, almoços e coquetéis. Fomos recebidos por Fidel Castro e Che Guevara, num encontro memorável. E nada mais.

Nada provado contra mim, constatando-se que eu não representava nenhum um perigo para a sociedade, soltaram-me com a condição de não sair do Recife.

Imagine, ficar no Recife, onde os presos políticos eram torturados e até desapareciam, eu heim?

Manchete da Folha de S. Paulo hoje, 3/01: Dilma privatiza reforma de aeroportos

QUARTA

Anteontem pensava em registrar momentos de saudades e de repente estou preocupado com os primeiros dias do Governo Dilma Rousseff, marcados pela briga do PMDB em torno de cargos. Vergonha, mas normal no Brasil. Que fazer? A manchete do Estadão hoje é: "Além de cargos, PMDB quer influência no Planalto"

É melhor me dedicar aos preparativos de meu aniversário, dia 12, quando faço 74 anos. Haja.

Não há o que comemorar, tampouco impedimentos. Afinal, ainda estou trabalhando de segunda a sexta-feira, de 9 às 18 horas, como um trabalhador qualquer. Ainda produzo algumas crônicas, não tão saborosas quanto às de Ignacio de Loyola Brandão, que encimam quinzenamente, às sextas-feiras, a última página do Caderno 2 de O Estado de S. Paulo. Ainda dirijo num trânsito caótico e levo netos à escola. Ainda percorro a feirinha da Praça Benedito Calixto aos sábados e o Parque da Água Branca aos domingos, onde me encontrava eventualmente com Paulinho Nogueira. Ainda vou todos os sábados à Sala São Paulo, para ver e ouvir os concertos da Orquestra Sinfônica do Estado de S. Paulo. É lá que encontro velhos amigos ou figuras mitológicas, como Armênio Guedes.

A primeira vez que o vi na Sala São Paulo tive a certeza de que o conhecia. Era um rosto familiar. Recorri a Paulo Henrique Amorim para refrescar minha memória. Trata-se de um historiador que conhece a fundo a história do Partido Comunista Brasileiro, foi amigo íntimo de Luís Carlos Prestes e ainda hoje é colaborador da Imprensa Oficial do Estado de S. Paulo, que edita livros há vários anos, especialmente sobre a arte e a história de Sampa. Apesar da idade, mais de 90 anos, vai a todos os lugares dirigindo seu próprio carro.

Ao lembrar minha relativa longevidade sinto um misto de tristeza por não poder fazer tudo o que fazia há pouco tempo e de alegria por não depender de ninguém para exercer minhas principais atividades. É um consolo. Há pouco a luz do escritório onde escrevo pifou. Não precisei chamar nenhum eletricista. Peguei uma escada doméstica, diagnostiquei o problema, troquei a lâmpada queimada e cá estou novamente iluminado. Pena que meu cérebro não tenha a mesma claridade - ou seria clarividência?

Foi assim, exatamente assim, que a casa de meus pais recebeu energia elétrica pela primeira vez, na década de 40. Não me lembro quantos anos eu tinha, uns dez ou doze, talvez. Compramos alguns metros de fio, vários soquetes e algumas lâmpadas de 60 watts. Sem nenhum planejamento, instalei a dupla fiação ao longo de toda a casa, sob os vãos de madeira. Aqui e ali instalava um soquete. Em um dia de trabalho a casa estava iluminada, pelo menos entre seis da tarde e 10 da noite, quando o motor de óleo diesel era desligado. Não era para falar de saudade, mas ainda lembro de minha casa iluminada a candeeiro – nem a palavra se usa mais.

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