MINHAS CENAS INESQUECÍVEIS






1 – Chego para trabalhar na Editora Abril e me deparo com algumas pessoas sentadas na sala de espera para falar comigo. Cumprimento-as. A representante da gravadora me apresenta uma nova cantora, Gal Costa, e me oferece seu primeiro disco. Aperto-lhe a mão e digo: encantado. Nos anos seguintes muitas entrevistas se sucedem, até o ponto em que ela nem sabe mais quem sou.

2 - O poeta Ascenso Ferreira numa das mesas do Savoy, em plena avenida Guararapes, Recife, declamando “ora de dormir - dormir!; ora de vadiar – vadiar!; hora de trabalhar? Pernas pro ar que ninguém é de ferro!” Ouvintes de todas as noites, mais tarde famosos: José Wilker, Aguinaldo Silva, Luís Mendonça, Nelson Xavier, entre outros. Quando a manhã ameaçava, José Wilker me pedia dinheiro para tomar o ônibus de Olinda, cujo ponto inicial era do outro lado da avenida. Tomava o primeiro do dia.

3 - Fui entrevistar Muhammad Ali, nascido Cassius Marcellus Clay, um dos mais importantes pugilistas do mundo, no hotel San Raphael, avenida São João, São Paulo. Meu Inglês não dava para nenhuma pergunta, mas não precisava, ele só queria dizer que se convertera ao islamismo e a temática era notória. O importante era registrar o evento fotograficamente e gravar suas declarações. Década de 70. Rolou uísque à vontade. Ao sair da entrevista bati meu Fusca quando o farol fechou e não percebi. Nada grave, felizmente. A revista Intervalo relevou.

4 - Fidel Castro faz palestra para grupo de 120 brasileiros convidados a visitar Cuba, janeiro de 1963. Ao fim da longa conversa, Fidel se dirige à plateia e cumprimenta alguns, aperta a mão, olha nos olhos. Ninguém fotografou o momento em que parou na minha frente, para desgosto do delegado do Dops de Pernambuco, que em 1964 enquadrou minha viagem como sendo para um curso de guerrilha. Não era. O objetivo era mostrar as benesses do socialismo.

5 - Martine Carol lança no Cine República (Praça da República, São Paulo), um dos seus filmes. Noite de Gala, só para convidados. Eu fazia um curso de almoxarife na Aeronáutica, ano de 1956, quando tive a ideia de fingir-me segurança e acompanhei a entrada da estrela, lado a lado. Ninguém ousaria mexer com elegante indumentária. Martine Carol me olhou fixamente, agradecida e se despediu dizendo: “merci”. Ah! Meus atrevidos 19 anos! Ela não sabia que eu fugira do dormitório do Parque da Aeronáutica, em Santana, onde soldado não podia sair à noite. Pulava o muro.

6 - Hospedado por uns dias na Casa da Inglaterra, Cidade Universitária, Paris, meu anfitrião abre a janela e retira um litro de leite, acomodado do lado de fora. Explicou: é minha geladeira, nessa temperatura de quase zero grau. Quem me hospedava era o escritor Antônio Falcão, falecido em abril deste ano no Recife. Na época, década de 70, era perigoso hospedar-se na Casa do Brasil, cuidadosamente vigiada por agentes brasileiros. Toninho era irmão de Aluízio Falcão, também escritor e jornalista, que já lançou três livros e tem mais um engatado pela Cia. Editora de Pernambuco.

7 - Fotografei a apresentação especial da peça “Julgamento em Novo Sol”, de Nelson Xavier, no Palácio da Alvorada, década de 70. Na primeira fila da plateia, a primeira dama Teresa Goulart, nem um pouco incomodada com o chato fotógrafo de Pernambuco, que a entrevistou em seguida para UH-N. Na semana seguinte, quando o MCP-Movimento de Cultura Popular apresentava a mesma peça no Teatro Nacional do Rio de Janeiro, roubaram minha bolsa de fotógrafo com filmes não revelados. A imagem da linda Teresa ficou apenas “em minha retina cansada”, como na canção “Lábios que beijei”, de J. Cascata e Leonel Azevedo, imortalizada por Orlando Silva.

8 - Quando o industrial pernambucano José Ermírio de Moraes era candidato a senador, acompanhava-o em comícios pelo sertão, a serviço da Última Hora-Nordeste. Anos depois, acompanhava o trabalho meritório de um de seus filhos, Antônio Ermírio de Moraes, como superintendente da Beneficência Portuguesa, que frequentava habitualmente o HCFMUSP em busca de colaboração mútua. Muitos médicos do HC trabalhavam na Beneficência. Como assessor de imprensa, eu divulgava todos os eventos e atividades, como interlocutor e porta-voz das instituições. Ficou a cena de encontros marcados pela cordialidade.

9 - Como repórter de UH-N fui designado pelo chefe de reportagem, Milton Coelho da Graça, para entrevistar o general Humberto Castelo Branco sobre o discurso de João Goulart no dia 30 de março de 1964. Ele me recebeu educadamente e em seguida, educadamente, apertou minha mão e me expulsou de sua sala, sem uma única palavra, nunca esqueci a cena. Era baixinho como eu.

10 - Duas irmãs se formaram professoras no colégio das freiras de Gravatá. Nomeadas para o alto sertão, sobrou-me a tarefa de acompanhá-las nos primeiros meses de trabalho em ambiente sabidamente hostil - Serrita, a terra do “coronel” Chico Romão. Temido por suas matanças, ele nos recebeu como se fôssemos membros da família. E nos acomodou confortavelmente no distrito de Sítio dos Moreira. Nunca esqueci a cordialidade do brabo “coronel”. Minhas irmãs alfabetizavam no sertão, tendo-me como guarda-costas. Convivíamos com a liderança dos Sampaio, inimigos dos Alencar.





11 – Dácio Nitrini, editor-chefe da Folha de S. Paulo, combina comigo a produção de uma foto com as principais autoridades em AIDS no país, ao meio-dia, na Secretaria de Estado da Saúde. Um dos convidados era o meu chefe no HC, que concordara em comparecer mas havia dado ordens à secretária para não interromper “em nenhuma hipótese” a reunião de que participava. Quando a reunião acabou, todos os demais convidados já estavam no local combinado, menos meu chefe, que chegou ofegante e foi xingado de “estrela” pelos demais membros do grupo. De volta ao gabinete decretou três dias de suspensão como responsável pelo incidente, que considerou proposital. No domingo, a Folha publicou a tal foto, em página inteira.



12 – Francisco Cuoco e outras estrelas globais faziam uma novela sobre garimpo no interior do Brasil e o repórter acompanhava tudo de perto por uma semana para a revista Intervalo. Comprou uma calça e juntou a nota fiscal à prestação de contas. Alguns dias depois a auditoria da Editora Abril glosou a despesa, que embora pequena, era irregular. A empresa só pagaria hospedagem e alimentação, praxe nesses casos. De nada adiantou recorrer ao chefe de reportagem, Giba Um, que tirou o dele da reta, como se diz vulgarmente. E o repórter famoso, Arley Pereira (1932/2007), foi demitido sumariamente por justa causa.



13 - Meu Dauphine não era um Porsche, mas com ele fui de São Paulo ao sertão de Pernambuco, fui e voltei, e de quebra trouxe a namorada, com quem casei no cartório da Teodoro Sampaio, tendo como padrinhos de casamento Roberto Muylaert e esposa. Era meu primeiro carro, comprado em prestações, e alguns colegas disseram ser loucura enfrentar a BR 116 com tão frágil veículo. Andei pelo Agreste, visitei Fazenda Nova, atravessei o rio Capibaribe aonde não havia ponte e roubei a tabeliã de Jataúba, que conhecia de outros carnavais. A lua de mel durou uma semana pela estrada ainda não totalmente asfaltada em Alagoas e Sergipe. Quando não achávamos hotel, dormíamos no possante.



14 – Frequentava a casa de uma família amiga no bairro de Casa Amarela, Recife. Alguém colocava um disco na vitrola e dançávamos alegremente com as três moças da casa, naquilo que conhecíamos como “assustado”. Antes da dança, jogávamos xadrez. Durante um ano joguei diariamente com minha parceira preferida, antes de começar a dança. Para mim, ela era uma deusa e já a considerava minha namorada. Depois de um ano, quando jogava xadrez com o irmão dela, eis que a vejo dançando agarradinha com um dos frequentadores e pergunto ao quase cunhado o que significava aquilo. E ele, na maior tranquilidade, me conta que os dois estavam namorando. “Como assim”, pergunto aflito. E ele esclarece: “Você nunca disse nada a ela. Nunca se declarou!”...



15 – No auge do “Aqui agora”, do SBT, o apresentador pede para entrevistar médico que fazia cirurgia pioneira no Brasil. O cirurgião negou-se energicamente, alegando que não queria aparecer numa tevê que era vista apenas por empregada doméstica. Contou que quando passava pela cozinha, aos domingos, via de relance o pessoal preparando o almoço e assistindo o Programa Silvio Santos. Após informar a administração superior sobre a recusa e explicar as vantagens de divulgar o pioneirismo, o cirurgião foi convencido a conceder a entrevista. Nos dias, meses e anos seguintes ele tornou-se grande amigo, sempre à disposição da imprensa. Até hoje me agradece pela insistência.



16 – Fui a Portugal pela primeira vez em 1975, um ano após a queda da ditadura. Ainda havia receio de explosões, perigo em toda parte. Saía sozinho para conhecer Lisboa quando tive a ideia de procurar um velho amigo que supunha do Partido Comunista, chamado Manuel Messias. Havia centenas de Manuéis e dezenas de partidos comunistas. Cada partido tinha vários Manuéis. Muitos. Impossível. Fui então procurar um jornalista que conhecera nos tempos do Estadão, Miguel Urbano Rodrigues, num dos jornais. Não me deixaram nem entrar no saguão, supondo-me terrorista. Era comum jogarem bombas nos jornais que defendiam a democracia. Depois de uma semana peguei o trem de volta a Paris.





17– O escritor Hernane Donato, da Academia Paulista de Letras, era Relações Públicas da Editora Abril. Quando não almoçava com Victor Civita, presidente da empresa, encontrava-o na fila do restaurante dos funcionários e sentávamos juntos, em conversação descontraída, quando ele tentava me convencer a mudar para uma cidade média do interior e criar um jornal, se lá não tivesse um. Argumentava que eu poderia arranjar um bom casamento e virar figura importante da cidade. Quando perguntei os motivos da inusitada sugestão ele foi sincero: eu não teria como progredir em meio a incontáveis gênios que criaram Quatro Rodas, Veja e Realidade. Talvez ele tivesse razão. Nunca passei de redator (copy desk) da revista Intervalo, que fechou por não dar lucro individualmente. Fui para o Estadão.

18 - Depois de 30 dias em Cuba, conhecendo a ilha de cabo a rabo, resolvo ficar no apartamento do hotel Habana Riviera na tentativa de morar no Edificio de los Becados, que abriga bolsistas do mundo inteiro para estudar gratuitamente na Universidade de Havana. Estava deslumbrado. Conhecera Fidel e Guevara nos encontros com os brasileiros e supunha erroneamente que conseguiria convencer o pessoal a me aceitar para estudar medivcina. Dia seguinte, informado pela arrumadeira que eu estava ocupando indevidamente o quarto, o gerente do hotel quase me botou no meio da rua. Os 120 brasileiros tinham ido embora, menos eu. Botaram-me no primeiro Ilyushin com destino ao Rio de Janeiro, onde procurei o consulado cubano e pedi uma passagem para o Recife. Não tinha concluído o curso secundário. Estava no 2º ano.

19 – Como redator da revista Intervalo era convidado para lançamentos de discos, estreias de espetáculos e eventos artísticos em geral. Também comparecia a restaurantes frequentados por artistas, para colher informações a serem utilizadas em reportagens e colunas de fofocas. Era assediado por empresários, insinuantes “secretárias” e até por mães de cantoras. Com o maior respeito, naturalmente. Tomava uísque com Antônio Marcos e Vanusa, com Altemar Dutra e Martha Mendonça, com Eduardo Araújo e Silvinha, etc. Quem não gostava nada disso era a mãe de meus filhos, que acabou pedindo desquite.

20 – Por duas vezes fui jurado do Troféu Imprensa. Entreguei o troféu a Ivan Lins, num ano, e a Altemar Dutra, em outro. Antes de me dirigir ao auditório, na praça Marechal Deodoro, fui buscar Altemar na rua Doutor Veiga Filho. Lá pelo fim da tarde, quando Silvio Santos nos chamou para a entrega do troféu, nenhum dos dois estava em condições de falar. Convidado a cumprimentar o cantor pelo merecido prêmio informei que ele acabara de me mostrar dois cômodos da casa dele cheios de troféus. Aquele seria mais um. Silvio me tomou o microfone e chamou os comerciais.

21 – Andava para lá e para cá nos estúdios da TV Record, proximidades do aeroporto de Congonhas, quando resolvo ir à sala do Dr. Paulo Machado de Carvalho, como de hábito, em busca de notícias. A secretária me barrou, assustada, pedindo “pelo amor de Deus” para não entrar. Achei que seria algo inusitado, no mínimo uma boa notícia. Ela então me explicou: Hebe Camargo estava chorando porque lera um desagradável comentário sobre o programa dela. A crítica impiedosa a chamava de várias coisas, menos de inteligente. O crítico impiedoso, do jornal A Gazeta era Zé Flávio, ou seja, nada menos que meu pseudônimo. Saí de mansinho.



22 – Passava as tardes observando quem descia dos aviões no Aeroporto dos Guararapes. Ao avistar D. Hélder Câmara fui correndo perguntar o motivo de sua viagem e ele não se fez de rogado. Disse que iria assumir a Arquidiocese de Olinda e Recife e me explicou sua prioridade: os mais humildes, claro. Dia seguinte a entrevista saiu em Última Hora - Nordeste, onde eu era foca.

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