TÔ ANTENADO


Ainda leio jornal, escuto rádio, vejo televisão e como pipoca. Tenho telefone fixo, embora ultimamente ele só tenha servido para receber propostas indecorosas, como oferecimento de empréstimo compulsório, ômega 3, plano de saúde, plano funeral, TV a cabo e de fibra ótica. Outro dia mandei uma carta para o Recife. Dois dias depois recebi a confirmação do recebimento. Ao contrário das frequentes críticas ao serviço, para mim os Correios funcionam.
É verdade que ainda não me acostumei com o desperdício de beleza de certas cantoras, apresentadoras de televisão e atrizes, que se rebelam contra a natureza. Trata-se de resquícios de minha “formação” machista, made in Caruaru, mas nada que atrapalhe a convivência pacífica com todos os gêneros.
Tenho um punhado de livros, embora nem sempre os leia até o fim. Paro quando quero e recomeço quando me convém. Vou juntando livros desde quando Pedro Herz inaugurou a Livraria Cultura no Conjunto Nacional. Não perdia os encontros nas manhãs de sábado e fingia intimidade com os escritores para bebericar à mesa com eles e pedir autógrafos.
Com Ignácio de Loyola Brandão eu não fingia, pois trabalhei ao lado dele na Editora Abril e testemunhei seu pedido de demissão e sua despedida do prédio da Marginal Tietê. Perguntei se estava doido, quem já viu alguém largar o emprego para escrever romance, só porque tinha a promessa de Tomás Souto Correia de comprar alguns de seus trabalhos!
Loyola tinha um livro na década de 60, chamado “Depois do Sol”. Este ano entrou para a Academia Brasileira de Letras com mais de 40 títulos publicados. E ainda frequenta a Livraria Cultura.
É verdade que o grande movimento na livraria é muito mais um fuzuê de estudantes e casais de namorados em busca de lazer. Mesmo assim, custa acreditar que ela esteja em processo de liquidação judicial, diante do grande movimento de todos os dias, inclusive nas filiais dos shoppings.
Cumprimento qualquer pessoa e me recuso a furar fila quando me oferecem. Agradeço e digo que não estou com pressa, além disso adoro as histórias que ali se desenrolam, alguém diz que esqueceu o feijão cozinhando, outro lembra o interlocutor que está na hora de acordar. Coisas simples da vida, que podem ser resolvidas por telefone. Nas filas, há ainda os que desabafam pelo telefone ou no wattsap. Ouço tudo, pois qualquer coisa dá romance, quem sabe, ou crônica. Tô antenado.

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