ANO VELHO, ANO NOVO



                                          VAMOS CAIR NO FREVO?
              
Ao entrar o novo ano estarei entrando nos oitenta. Teoricamente, teria todas as condições para entender o mundo e opinar sobre tudo. Não é o caso. Não me sinto abalizado a falar nem sobre mim mesmo.
Há pouco o país inteiro se comovia com a concorrência pública para abastecer a dispensa do avião presidencial. Logo o presidente a cancelou, devido à pressão popular.
Mesmo que a indignação seja justa, poucos lembravam o desespero dos habitantes de Alepo, as migrações em direção à Europa, as ditaduras sanguinárias da África e a onda de assaltos a partir de favelas que se multiplicam nas grandes cidades. No capítulo favelas, a novidade é que seus ilustres moradores ganharam o direito de registrar suas lajes.
Não vou publicar nenhum balanço nas páginas de classificados, pois entro quase todo dia nas mídias sociais para alardear felicidade. Com um pouco de exagero, é verdade, mas também alguma coisa de verdade. Depois de 21 anos a serviço da imprensa durante 24 horas por dia, virei motorista de netos, tarefa mais agradável e mais tranquila, apesar dos congestionamentos e percalços, sem a menor esperança de que algum dia obtenha algum reconhecimento. Basta-me o sorriso diário das meninas, não mais crianças.
Continuo indignado com a desfaçatez dos políticos, que contraria as lições de moral e ética de nossos pais às vezes sob palmatória, alertando-os sobre os perigos deste mundo. Mesmo desconhecendo os grandes pensadores e mestres, eles nos ensinaram a proceder com correção e a amar o próximo como a nós mesmos. A gente sofre, passa por apertos que nenhuma ferramenta desaperta, enquanto o vizinho bota a mão em tudo, na maior cara de pau. Dá no que todos sabem. O ano fez revelações jamais imaginadas. Os políticos, que deveriam zelar pelo bem público, desviam quantias incalculáveis para seus próprios bolsos.
Quem algum dia sonhou com dias melhores para a humanidade - e não apenas para si mesmos - mergulha em crise de identidade, perde o rumo, não acredita em partidos políticos que se multiplicam em número e se repetem em objetivos. Não é apenas o cidadão: todos os partidos são iguais perante a lei, como diria a Constituição em relação ao homem.
Quando a ressaca cair sobre nossas cabeças, só nos restará recolher mimos, beber muita água, iniciar nova dieta e nos precavermos dos dias que virão.

Outra opção é cair no frevo, como fazem os pernambucanos desde sempre. 

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