PRÓS E CONTRA NO CASO CHICO


Impossível fugir ao debate em torno do caso Chico Buarque, que ao ser agredido verbalmente por um grupo de jovens resolveu corajosamente enfrentá-los ao sair de um restaurante em Ipanema. Fãs como eu se apressaram em manifestar solidariedade, enquanto opositores reúnem argumentos para denegrir o compositor.
Logo aos primeiros sinais do longo embate tentei dosar argumentos com eventuais comentários, como a consideração de que seus depoimentos no filme “Chico – Artista Brasileiro” poderiam ser menos longos. Isso bastou para que um admirador reagisse indignado, dizendo tratar-se de condenação ao excelente trabalho de Miguel Farias Jr., por acaso um dos amigos de Chico presentes ao tal encontro das calçadas de Ipanema. A rigor, não se trata de uma crítica, apenas uma observação inofensiva, que sequer seria a única, na preocupação de demonstrar imparcialidade. Referi-me também ao desejo do compositor de ser reconhecido mais como escritor do que como músico. Confessei e admiti que não consigo ler seus livros até o fim, por maior que seja minha curiosidade e boa vontade. Tenho-os todos, mas alemão. A propósito, na minha condição de escritor e cronista do cotidiano, com vários cursos sobre a arte de escrever romances e outras bobagens (só não fiz ainda o curso do premiado Raimundo Carrero), não atinei para as sábias manifestações culturais em torno de suas andanças europeias, tampouco sobre os mistérios em torno de seu irmão se alguém tivesse a preocupação de descobrir um irmão alemão ou americano no Nordeste, particularmente no Recife, encontraria não um, mas uma penca. O conhecido apetite sexual dos americanos na época da II Guerra Mundial, como se sabe, produziu muitos mestiços.
O ponto central da discussão é porque um integrante da classe média, filho de professor universitário, dá seu apoio incondicional a um governo popular. Algo inconcebível numa sociedade formatada em princípios cristãos e democráticos, ao mesmo tempo algo muito comum nas universidades, onde prevalece o senso de Justiça. Nas universidades os jovens são influenciados pelo desejo de exercitar solidariedade e buscam desesperadamente uma causa, ou às vezes uma maneira de discordar de tudo e de todos.  
O Chico também surgiu assim. Carioca, morando no bairro do Pacaembu, em São Paulo, cercado de intelectuais por todos os lados, talvez sentisse necessidade de afirmação. Não tinha a bagagem cultural do pai, respeitável historiador, mas vivia dentro de sua biblioteca, lendo tudo o que estava ao alcance. Inicialmente, se sobressaiu com uma poesia que glosava com incrível categoria os problemas sociais. Buscava acordes musicais inusitados e explorava muito bem sua aparente timidez. Contava com a generosidade da burguesia envergonhada, da qual arrancava lágrimas.
Junte-se a tudo isso o sufoco da ditadura, que transformava qualquer novidade em atração irresistível. Para alguém que estivesse sofrendo as consequências do golpe de 64, o surgimento de uma música com a mais leve tendência esquerdizante era motivo de explosão emocional.  Nos auditórios da TV Record, da antiga TV Excelsior ou do antigo Teatro Brigadeiro, em São Paulo – palcos de memoráveis shows, festivais ou programas especiais – não havia quem não chorasse de emoção diante de tanta novidade. Cada frase virava um slogan. Cada acorde era um refrão. “É preciso estar atento e forte/Não temos tempo de temer a morte”, cantava Gal Costa.    
Eu estava bem no meio desse vendaval. Há bem pouco tempo, dois ou três anos antes disso, me incluía entre seguidores de Miguel Arraes, Francisco Julião, Paulo Freire, Pelópidas Silveira, Paulo Cavalcanti e outras figuras pernambucanas que lutavam por um mundo melhor para todos. Fazia o que estava ao meu alcance, ou seja, difundia, como jornalista, ideias que poderiam contribuir para a implantação de reformas sociais. Com sorte, escapara da fúria punitiva de então e abraçara o jornalismo de variedades, entrevistando artistas de rádio e TV em São Paulo. A música do Chico cabia como uma luva. Servia de amparo a um jovem que cometera versos tortos, ensaiara acordes ao violão em serenatas e até visitara Cuba para ver bem de perto Fidel e Guevara. Nada me comovia tanto. A música de Chico Buarque de Holanda era mais perfeita tradução de tudo o que sonhara.
Quanto ao apoio ao Governo, trata-se de direito inalienável. O próprio Chico diz em uma de suas músicas: “você não gosta de mim, mas sua filha gosta”. Eu também. Adoro o jeito debochado e a simplicidade do poeta, que só os celerados condenam. 

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