O REI E O PRÍNCIPE

Há muitos anos a juventude brasileira desfruta o trabalho de um “rei” e de um “príncipe”: Roberto Carlos e Ronnie Von. O primeiro surgiu em 1965 quando toda loja de disco do país tocava “quero que vá tudo pro inferno” e o segundo algum tempo depois, quando uma versão de “Girl”, dos Beatles, chegou às paradas de sucesso como “Meu Bem”. Roberto Carlos proibiu a publicação do livro Roberto Carlos em detalhes, de Paulo César de Araújo, pela Editora Planeta. Dizem que cerca de 30 mil exemplares continuam num depósito, por ordem judicial. No auge de uma polêmica envolvendo o direito de escritores escreverem sobre artistas com ou sem autorização, Roberto Carlos juntou-se a outros artistas para pleitear leis mais duras contra a publicação de biografias não autorizadas. Depois recuou. Recentemente, Paulo César de Araújo lançou O réu e o rei, com o subtítulo de Minha história com Roberto Carlos, em detalhes, pela Companhia das Letras. O curioso é que desta vez Roberto não recorreu à Justiça. Talvez temeroso de novas críticas, preferiu lavar as mãos, sem perceber que ao contar as peripécias em que se envolveu por causa do boicote à biografia, Paulo César de Araújo esmiúça de tal forma a vida do cantor que o novo livro, vendido abertamente, não deixa pedra sobre pedra, tanto quanto a carreira como quanto a vida particular do cantor. O que mais impressiona no livro é justamente o caráter detalhista das narrativas, que começam contando de que forma o autor, ainda menino em Vitória da Conquista (BA), conheceu a música de Roberto. Ouvia no rádio da cidade e nas lojas de disco. Com dificuldade comprava um a um os lançamentos e não conseguiu entrar no primeiro show realizado em sua cidade. Através de cuidadosa análise das letras, o autor relaciona as diversas frases com a vida particular do cantor. É fácil saber quando a música é dedicada ao pai, à mãe, à primeira esposa, ao filho deficiente visual, a Maria Rita, e assim por diante. O livro foi proibido por envolver “de maneira leviana e abusiva, fatos da intimidade do querelante e de sua família”. E também por “se intrometer, indevida e destrutivamente, na vida alheia, uma invasão de intimidade e privacidade que se não é física, certamente é moral”. Quem ler O Réu e o Rei fica sabendo mais do que consta no livro proibido. Até a longa discussão em torno do grupo Procure Saber, inventado por Paula Lavigne para defender os artistas que não admitem biografias não autorizadas, é objeto de longa análise no novo livro. Quanto ao livro sobre Ronnie Von, trata-se na verdade de uma biografia autorizada, feita por dois jornalistas competentes (Antônio Guerreiro e Luiz Cesar Pimentel) que o entrevistaram exaustivamente até obter o resultado desejado. A compilação da vida e da obra do cantor, que Hebe Camargo um dia comparou a Antoine de Saint Exupéry, autor de um livro chamado “Pequeno Príncipe”. Antoine era aviador, como Ronnie. O livro é ricamente ilustrado e não omite nenhum detalhe da vida do cantor, que não fez nenhuma restrição ao conteúdo. A leitura do primeiro livro deixou-me em dúvida se vale a pena dedicar praticamente toda uma vida a esse assunto. O autor conseguiu pelo menos o título de historiador. O segundo esclarece dúvida atroz: havia, sim, uma luta de bastidores entre o programa de Roberto Carlos e o de Ronnie Von. Quem cantava em um, não cantava em outro. Muitos anos depois, quando Ronnie caiu doente, Roberto foi visitá-lo gentilmente e até hoje são amigos. Roberto continua “rei”, com apresentação anual na TV Globo. Ronnie comanda programa na TV Gazeta, beneficiando-se de peculiar fidalguia.

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