"CONFIDENCIAL" REVELA DOCUMENTOS DE 64





O livro "Confidencial - Documentos Secretos da Ditadura Militar", de Hiram Fernandes , lançado em maio deste ano pela Companhia Editora de Pernambuco, revela desde os mais importantes até os mais insignificantes relatórios produzidos pela polícia de Pernambuco a propósito da chamada revolução de 1964. Reproduzidos na íntegra, os documentos contêm informações sobre prisões de autoridades, personalidades e outros profissionais a partir de 1º de abril daquele ano, quando houve tortura e morte de comunistas. Por outro lado, mostra a fragilidade dos argumentos das autoridades no combate aos subversivos. 
O rol de perguntas a que eram submetidos os presos políticos, por exemplo, seguia a mesma rotina dos interrogatórios de ladrões de galinha, ou seja, nome, filiação, endereço, religião, cor da pele, sinais particulares, etc., para em seguida tentar arrancar algo em torno da doutrina comunista, perguntando se o depoente concordava com a opinião de fulano ou cicrano. Como regra geral, os inquisidores pediam a opinião sobre o principal responsável por tudo o que estava acontecendo no Brasil e no mundo: Miguel Arraes de Alencar. 
O maior empenho dos cem investigadores comandados pelo delegado Álvaro da Costa Lima no âmbito da polícia civil e pelo coronel Hélio Ibiapina no âmbito do Exército, era arrancar nomes dos "companheiros", na tentativa de relacionar os perigosos subversivos nas diversas categorias profissionais. Assim, sempre que algum incauto, por ingênuidade ou sob tortura, revelava o nome dos comunistas de sua área de atuação, o Dops publicava a relação nos jornais, em forma de nota oficial, expondo o depoente ao ridículo como delator.
Durante os 30 dias em que permaneci no DOPS, dormindo sentado em bancos de madeira, lado a lado com dezenas de outros presos, fui chamado a depor pelo menos três vezes. Perguntavam se eu queria sair. Era só fornecer o nome dos jornalistas que participavam da célula do partidão. Se eu dissesse os nomes e assinasse o depoimento seria libertado de imediato. Insisti na tese de que eu era apenas jornalista (Última Hora) e por isso convivia com figuras conhecidas como Paulo Cavalcanti, Hiram de Lima Pereira, Miguel Baptista e David Capistrano - entre outros. Alguns dias depois de sair da prisão os jornais estamparam tal relação, fornecida por outro jornalista. 
O autor do livro atuou como advogado na defesa de presos políticos, acompanhando durante muitos anos a perseguição aos comunistas e simpatizantes. Para reunir tantos documentos teve o apoio do governador Eduardo Campos, autor do prefácio. Os depoimentos contêm a expressão digo, recurso utilizado para corrigir erros de datilografia. Mostram desperdício de papel e de ideias, na ânsia de enquadrar os que queriam derrubar o Governo e instituir o comunismo no país. Nesse desespero, aparecem na relação dos supostos subversivos nomes insuspeitos, como o industrial José Ermírio de Moraes, dono da Votorantim e candidato a senador na década de 60. 
Curiosamente, não há muitas referências ao notório comunista Abelardo da Hora, poupado por uma peculiaridade pernambucana: laços familiares. Sua esposa era irmã do prefeito Augusto Lucena e tinha ligações de parentesco com altas patentes do Exército, o que provavelmente contribuiu para que ele não fosse torturado. Não há relatos minuciosos sobre Hiram de Lima Pereira, dirigente estadual do PCB desaparecido em 1975 e agora relembrado porque faria 100 anos em 3 de outubro. Hiram conseguiu a proeza de viver dez anos na clandestinidade. 
A pergunta mais inteligente dos interrogatórios era "que juízo faz o depoente" de Miguel Arraes de Alencar, Luiz Carlos Prestes, Leonel Brizola, Francisco Julião, David Capistrano, Paulo Cavalcanti, por aí afora. Do prefeito Pelópidas Silveira cobraram um posicionamento sobre cada um deles e até de seu assessor de imprensa, jornalista Flávio Tiné, que tinha ido a Cuba, era da União Cultural Brasil-União Soviética e apenas se esforçava para entender tamanha confusão. A resposta padrão dos depoimentos era que se tratava de homens probos, interessados no bem comum. Enfim, um livro rico em detalhes e fiel aos arquivos, que mostra danosa perseguição ao fantasma do comunismo. 

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