HUMOR DESCONTROLADO

Normalmente sou um carneirinho de bondade, mas às vezes fico indignado, como qualquer um.
Tenho bons dias e passo boas noites, mas às vezes fico insone, e nada consegue diminuir o fogo em que meu cérebro se consome.
Quando vejo minhas vizinhas caminhando em direção ao trabalho tenho inveja. Não porque elas vão trabalhar, mas pelo empenho, pela coragem, pela juventude com que desfilam e pela disposição que aparentam. Mas às vezes elas lembram vacas rumo ao matadouro. Ou seriam peruas?
Toda vez que pisam no meu calo é como se eu pedisse para pisar de novo. Não! Apenas uma vez não é suficiente para despertar minha ira, nem qualquer outro sentimento de desespero. Deixo tudo pra lá, até as ofensas e reclamos que não foram atendidos.
Minha Nossa Senhora! – diria minha mãe, ao saber que mais um dos seus filhos foi embora. Minha Nossa Senhora, digo eu, diante da ignomínia de continuar nessa jornada inócua de aguar as flores e podar as plantas, rotina que tem o sabor da garoa, felizmente.
Normalmente sou um poço de bondade, principalmente quando vejo o horizonte com um pedaço de lua que amanhã estará maior, até formar uma bola branca de raro esplendor. Às vezes desejo perguntar por quê, mesmo sabendo que ninguém responderia.
Sou assim normalmente, uma imensidão de bondade, coração de elefante, quem sabe tenha sido mordido pelo barbeiro da mansidão.
Cuidado com a intempestividade de minh’alma, que não reconhece o ódio, escondido lá por dentro, mas conhece a dor como ninguém. Devo ter algo mais, que não identifico, um conteúdo explosivo de incongruências.
Estava assim ontem, estou assim hoje, cada dia diferente, melhor ou pior, nunca se sabe. A qualquer momento posso deslizar descontrolado – ai de mim, sem freios e sem destino!

(23/7/2007)

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